Esporotricose

Dra. Rita Carmona

Ultima atualização: 28 JUN DE 2020

Sinônimo

Morbus brasiliensis 

Nome em inglês

Sporothricosis

Definição

Dermatopatia fúngica incluída no grupo das micoses de implantação de característica ergodermatósica, antropozoonótica e saprozoonótica. Tem como fontes de infecção, o gato, vegetais e o solo. 

 

Etiologia e Fisiopatologia

O agente etiológico da esporotricose tanto animal quanto humana mais prevalente, na atualidade, em território brasileiro é o Sporothrix brasiliensis.

Os fungos do gênero Sporothrix são demáceos (produtores de melanina) que lhes confere proteção à imunidade inata do susceptível e ainda tal característica pode conferir resistência a alguns anti-fúngicos.

A infecção se dá pela inoculação do fungo no tegumento do susceptível pela arranhadura, mordedura ou mesmo através de contato com lesões infectadas. Após a entrada do agente, com período pré-patente de 21 dias em média, na dependência do estado imunológico do indivíduo, pode surgir lesão inicial que permanece localizada (esporotricoma ou cancro esporotricótico) ou então, as lesões cutâneas podem se disseminar, acometendo não só a pele, mas também outros órgãos. Também pode haver acometimento do sistema linfático, caracterizando os quadros de “rosário esporotricótico”, mais comumente visto em infecções humanas. Raramente, apesar de referida, a infecção pode ocorrer pelas vias área e/ou digestiva, nesses casos levando à manifestações sistêmicas.

Em casos de imunossupressão, seja por outras enfermidades ou uso de imunossupressores, os quadros clínicos e dermatológicos tendem a ser mais graves e de mais difícil tratamento.

O Sporothrix brasiliensis é considerada a espécie mais virulenta e mais patogênica, com maior capacidade de invasão e dano tecidual. A constituição de sua parede celular e a síntese de enzimas (proteases, lipases e uréases) lhe confere capacidade de invasão, disseminação e evasão do sistema imune do indivíduo acometido. 

Prevalência

É considerada a principal micose de implantação, especialmente no Brasil. É mais ocorrente em felinos domésticos, contudo os cães, os equínos e o homem também podem ser acometidos.

A ocorrência em felinos é mais comum em gatos machos, não castrados, com faixa etária média de dois anos, errantes ou semi-domiciliados. 

Do ponto de vista epidemiológico, a infecção é considerada subaguda ou crônica, com distribuição ubiquitária e cosmopolita. Mais ocorrente em áreas de clima tropical e subtropical, com maior importância nas Américas Central e Sul, sendo o México e Brasil os países de maior concentração de casos. 

Achados de Anamnese e Manifestação clínica

O quadro clínico/tegumentar tem evolução sub-aguda ou crônica (8 semanas de evolução clínica média), com início referido após briga e/ou contato com animais enfermos. Acomete majoritariamente os machos jovens (média dois anos de idade) não castrados, com quadro dermatológico com mais de duas lesões, topograficamente acometendo regiões: cefálica, membros torácicos e mucosas. 

As lesões podem ser caracterizadas por alopecia, lesões em satélite (corimbiformes) e fístulas com eliminação de material piossanguinolento. Nódulos ulcerados, encimados por crostas hemáticas e/ou necróticas, lesões em goma são comumente vistas nos quadros de esporotricose felina. O quadro de linfangite ascendente (“Rosário esporotricótico”) é raramente evidenciado em gatos e cães.

As formas de esporotricose podem ser classificadas em:

Cutânea localizada (cancro esporotricótico)

Cutânea disseminada: mais vista em felinos

Cutâneo-linfática

Nasal

Mucosa

Ocular: com acometimento de mucosa ocular 

Procedimento Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se nos achados clínicos e dermatológicos. 

Exame citofungoscópico: realizado a partir de exsudato (por decalque, escarificado, aspirado de nódulos) ou obtido por biópsia, com coloração pan-optico (Diff- Quick),  Gram, Wright, Giemsa, Rosenfeld, Romanosky  evidenciando-se presença de formas leveduriformes, arredondadas, pleomórficas, muitas vezes em forma de “charuto”, podem auxiliar o diagnóstico. Existe maior facilidade de evidenciação dessas formas nas lesões cutâneas de felinos. 

Exame cultivo micológico: considerado “gold standard”, pode ser realizado através do cultivo de material coletado de lesões por “swab”, aspirado e material biopsiado. Deve-se realizado o cultivo (25oC e 37oC) em Ágar Sabouraud, Dextrose (acrescido de cicloheximida), Ágar BHI. Meio de Celeste Fava Neto. Para identificação de estruturas fúngicas deve-se usar coloração lactofenol azul de algodão e ao microscópio óptico (100 e 400 vezes ).

O tempo médio para resultado de cultura é de 10 a 14 dias.

Exame histopatológico: recomenda-se, paralelamente ao citofungoscópio e cultivo micológico,  este exame sempre que possível por ter alta sensibilidade, baixo custo e rapidez. Permite o diagnóstico em 95 a 100% dos casos. 

Provas sorológicas: utiliza-se, menos rotineiramente, para efeito de diagnóstico o teste de ELISA, desenvolvido por pesquisadores brasileiros com sensibilidade e especificidade de 90% e 96%, respectivamente, em infecções de felinos domésticos. Ressalta-se que pode ser uma ferramenta ágil e de baixo custo disponível para o clínico de pequenos animais. 

Reações em cadeia de polimerase (PCR): pode ser utilizado como importante meio de detecção de material genético do agente. Contudo, em muitos lugares, só disponível a nível acadêmico. 

Diagnósticos diferenciais

Criptococose, nocardiose, micobacteriose, pseudomicetoma dermatofítico e carcinoma

Tratamento

O itraconazol é o fármaco sistêmico de eleição para o tratamento da esporotricose, na dose de 10mg/kg de peso, a cada 24 horas, por meses. Em regiões endêmicas pode-se utilizar a dose de 50 a 100mg/gato a cada 24 horas. Em casos refratários à monoterapia ou naqueles com envolvimento nasal, pode ser associado ao itraconazol, o iodeto de potássio 5 a 10mg/kg a cada uy[

Ainda, a aplicação de Anfotericina B intralesional teve sucesso para terapia de lesões nasais refratárias ao uso das terapias já descritas. 

Ressalta-se que está contra-indicado o uso de corticóides tópicos e/ou sistêmicos e de outros imunossupressores.

Deve acompanhar ao longo da terapia a atividade de enzimas hepáticas 

Prognóstico

Varia de acordo com o estado imunológico do paciente, evolução do quadro e comorbidades.

Reservado a mau

Literatura recomendada

LARSSON & LUCAS. Tratado de Medicina Externa: Dermatologia Veterinária, 2ª edição, Ed Interbook, 2019

                                 

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