Erliquiose

Dra Cristiene Rosa

Ultima atualização: 29 FEV DE 2020

Nomenclatura

Reino: Monera

Filo: Proteobacteria

Classe: Alphaproteobacteria

Ordem: Rickettsiales

Família: Anaplasmataceae

Gênero: Ehrlichia

Espécie: Ehrlichia canis

Nome em inglês

Canine monocytic ehrlichiosis

Definição

Doença multisistêmica, causada pela bactéria Ehrlichia canis, transmitida pelo carrapato marrom do cão, Rhipicephalus sanguineus.

Fisiopatologia

A espécie E. canis, é uma bactéria intracelular obrigatória de mononucleares, como monócitos, macrófagos e linfócitos.

Durante o repasto sanguíneos, o carrapato inocula o agente, que invade células mononucleares, local em que se multiplicam, dando origem às mórulas. 

Após um período de incubação de 8 a 20 dias, o cão entre na fase aguda, cuja duração é em torno de 2 a 4 semanas, com multiplicação da Ehrlichia em leucócitos e disseminação para linfonodos, baço e fígado.

Findo este período, os parâmetros tendem a normalidade em animais imunocompetentes, tornando-se portadores assintomáticos.

Neste período os animais podem ser fonte de infecção para o vetor e, por estarem com infecção ativa, apresentam aumento no título de anticorpos.

Esta fase pode durar de semanas a anos, com o agente presente no baço e medula óssea e de forma intermitente na circulação sanguínea.

Há possibilidade de eliminação do agente pelo hospedeiro, ou evolução para a fase crônica da doença.

Caso o animal entre no estágio crônico, as manifestações clínicas tendem a ser mais severas, culminando, em alguns casos, na morte do cão.

Ocorre diminuição da meia vida das hemácias e plaquetas em razão da resposta imunomediada, agravado pela hipoplasia, ou aplasia de medula óssea, levando a anemia não regenerativa, pancitopenia e trombocitopenia grave.

A presença de grande quantidade de anticorpos e antígenos provocam vasculite, artrite e glomerulonefrite devido ao depósito de imunocomplexos.

A bactéria dificilmente é detectada na corrente sanguínea, podendo ser encontrado no baço, medula óssea e linfonodos.

A morte ocorre por falência múltipla dos órgãos, processos hemorrágicos e infecções secundárias.

A transmissão também pode ocorrer por transfusão sanguínea, uso de agulhas contaminadas e durante cirurgias.

Etiologia

Bactéria gram-negativa, intracelular obrigatória, parasita de células mononucleares de canídeos.

Eventualmente gatos podem ser infectados e produzir anticorpos específicos, porém sem importância clínica para este hospedeiro.

A transmissão ocorre durante o repasto sanguíneo do carrapato marrom do cão, Rhipicephalus sanguineus.

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

As raças Sheepdog e Pastor Alemão são citadas como mais predispostas a apresentarem manifestações clínicas, assim como cães com menos de 1 ano de idade, hospedeiro em que os sinais são mais evidentes durante a fase aguda. Não há predisposição quanto ao sexo.

Achados de anamnese

Presença de carrapatos nos últimos três meses, presença de animais com a doença.

Manifestações clínicas

As manifestações clínicas são semelhantes em diferentes estágios da doença, dificultando a identificação da fase em que o animal se encontra, mesmo assim, por fins didáticos, as manifestações foram citadas de acordo com a fase da infecção.

Fase aguda: febre alta, mucosas pálidas, anorexia, apatia, esplenomegalia, linfadenopatia, podendo ocorrer petéquias e sufusões, gastroenterite, hematoquezia e oftalmopatias.

Sinais neurológicos ou artropatias são raros.

Fase de portador assintomático (subclínica): em alguns casos pode ser observado emagrecimento progressivo, mas normalmente não há manifestações clínicas evidentes.

Fase crônica: febre, sangramentos e hemorragias espontâneas, como epistaxe, petéquias e sufusões, mucosas pálidas, apatia, emagrecimento, uveíte e outras alterações oculares graves, lesão renal, artrite, melena, corrimento óculo nasal.

Gatos podem produzir anticorpos específicos, porém não há importância clínica para este espécie.

Procedimentos diagnósticos

Dependendo da fase da doença, algumas alterações podem ou não estarem presentes, ou ainda se apresentarem com intensidades variáveis.

Hemograma: (sangue com EDTA)

Anemia normocítica normocrômica arregenerativa, leucopenia moderada a acentuada com neutropenia e linfopenia, pancitopenia, moderada ou acentuada trombocitopenia, abaixo de 100.000 plaquetas pormicrolitro.

Na fase de portador assintomático a anemia, leucopenia e trombocitopenia podem ser observadas de forma branda. Presença de mórulas de Ehrlichia no citoplasma de monócitos e linfócitos, em 4 a 6% dos casos, principalmente durante a fase aguda da doença.

Esfregaços de papa de leucócitos podem aumentar a sensibilidade para 56%.

Bioquímico: (soro ou plasma dependendo da enzima pesquisada)

Hipoalbuminemia, hiperglobulinemia, aumento de proteína C reativa no período de incubação.

Eletroforese sérica: hipergamaglobulinemia

Anticorpos específicos: (soro)

Anticorpos específicos são detectáveis a partir de 14 dias pós infecção.

A imunofluorescência indireta (RIFI) é o método de referência, sendo considerado positivo animais com títulos ≥ a 1:40. (soro ou plasma).

Testes rápidos de ELISA são disponibilizados em kits comerciais, possuem a vantagem de um resultado rápido, porém com menor sensibilidade.

A presença de anticorpos já foi detectada 34 meses após a cura clínica, por este motivo a presença de anticorpos deve ser interpretada com dados de anamnese, manifestações clínicas, exame clínico e resultado de outros exames.

O uso de métodos qualitativos, que se limitam a resultados positivos e negativos, não deve ser utilizado após o tratamento para avaliação da eficácia do mesmo.

Em casos em que o animal tem forte indício da doença e o diagnóstico sorológico é negativo, pode ser feito um novo teste após 2 a 3 semanas.

A sorologia pareada avaliando títulos de anticorpos pode ser empregada para animais com suspeita na fase assintomática, com intervalo de 14 dias entre os testes, com aumento de 2 a 4 vezes o título. 

Biologia molecular: (sangue total em EDTA)

A técnica possui alta especificidade e sensibilidade.

O teste é capaz de detectar a bactéria a partir do 4º dia pós infecção.

A amostra deve ser colhida antes do início do tratamento.

A sensibilidade do método cai na fase crônica da doença, principalmente pela ausência de E. canis na corrente sanguínea, por este motivo é encorajada a realização concomitante de pesquisa de anticorpos.

Amostras de baço são excelentes para este tipo de diagnóstico, porém pouco recomendadas ante mortem pelo risco de sangramento do órgão, mas como material colhido em necrópsia. A PCR é uma boa opção para o monitoramento do tratamento. 

É importante destacar que as manifestações clínicas e alterações hematológicas decorrentes da erliquiose podem estar presentes em outras hemoparasitoses, em que o tratamento é semelhante, nestes casos, os exames específicos para Ehrlichia canis terão resultados negativos, antes de depois do tratamento.

Considerar outra hemoparasitose.

Diagnósticos diferenciais

Babesiose, hepatozoonose, rangeliose, anaplasmose, anemia hemolítica autoimune, neoplasias.

Terapia inicial

Doxiciclina é o antimicrobiano de eleição (10 a 15 mg/kg/via oral, por 28 a 42 dias).

Em alguns casos pode utilizar omeprazol (1 mg/kg/via oral), 30 minutos antes da administração da doxiciclina.

Contraindicações para fêmeas prenhas, lactentes e filhotes.

Uma alternativa a doxiciclina é a minociclina (10 a 20 mg/kg/via oral, a cada 12 horas, por 30 dias).

Cloranfenicol (50 mg/kg/vias oral, subcutânea ou intravenosa, a cada 8 horas) em casos persistentes ou refratários à doxiciclina.

Também pode ser utilizado em casos de infecções secundárias.

Dipropionato de imidocarb (5 a 6,6 mg/kg/subcutâneo, repetir após 14 dias) associado a atropina (0,04mg/kg/subcutâneo, 15 minutos antes da aplicação do imidocarb).

Em casos de infecções secundárias, utilizar a doxiciclina aliada a outros antibióticos:

Ciprofloxacino (10 mg/kg/via intravenosa, a cada 24 horas)

Levofloxacino (10 mg/kg/via intravenosa, a cada 24 horas)

Ceftiofur (7,5 mg/kg/via subcutânea ou intramuscular, a cada 24 horas)

Terapia de suporte e manutenção

Fluidoterapia.

Transfusão: avaliar em casos de hematócrito <14%, sendo fortemente indicada quando <10% preferencialmente com sangue fresco, pela reposição de plaquetas.

Predinisona (2 mg/kg/a cada 12 horas, por 10 dias; 1 mg/kg/a cada 12 horas, por mais 10 dias e 1 mg/kg/a cada 24 horas, por mais 10 dias), via oral.

Imunomoduladores: levamisol (0,5 a 2 mg/kg/via subcutânea).

Estimulantes da medula óssea: eritropoetina (50 a 100 UI/kg/via subcutânea, 3 vezes por semana, segundo monitoramento do volume globular). Após reduzir para 1 a 2 vezes por semana; Suplementação com ferro (100 a 300 mg/kg/a cada 24 horas, por 3 a 5 meses).

Controle do carrapato no animal e no ambiente.

Prognóstico

Quando o tratamento é feito durante a fase aguda da doença o prognóstico é favorável a reservado.

Em casos crônicos é reservado a ruim, dependendo da resposta da medula óssea.

O desfecho da doença também está relacionado com a resposta imune individual, idade, patogenicidade da cepa e coinfecções.

Literatura recomendada

AGUIAR, D.M. Aspectos epidemiológicos da erliquiose canina no Brasil. 2006. 95. f. Tese (Doutorado). Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

 

ALMEIDA, A.P. FMVZ Pesquisa de Rickettsia, Ehrlichia, Anaplasma, Babesia, Hepatozoon e Leishmania em Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) de vida livre do Estado do Espírito Santo 2011. 88. f.. Dissertação (Mestrado). Epidemiologia Experial e Aplicada ás Zoonoses, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

 

SATARÉM, V.A.; AGUIAR, D.M. Erliquiose canina. In: MEGID, J.; RIBEIRO, M.G.; PAES, A.C. Doenças infecciosas em animais de produção e de companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. p. 95-111.

 

UENO, T.E.H.; AGUIAR, D.M.; PACHECO, R.C.; RICHTZENHAIN, L.J.; RIBEIRO, M.G.; PAES, A.C.; MEGID, J.; LABRUNA, M.B. Ehrlichia canis em cães atendidos em hospital veterinário de Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil. Rev. Bras. Parasitol. Vet., v. 18, n. 3, p. 57-61. 2009

 

VIEIRA, F. T. Ocorrência de Ehrlichia spp., Anaplasma spp., Babesia spp., Hepatozoon spp. e Rickettsia spp. em cães domiciliados em seis municípios do Estado do Espírito Santo, Brasil. 2017. 62. f. Tese (Doutorado). Doenças Infecciosas, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2017.

 

VIEIRA, R.F.C.; BIONDO, A.W.; GUIMARÃES, A.M.S.; SANTOS, A.P.; SANTOS, R.P.; DUTRA, L.H.; DINIZ, P.P.V.P.; MORAIS, H.A.; MESSICK, J.B.; LABRUNA, M.B.; VIDOTTO, O. Ehrlichiosis in Brazil. Rev. Bras. Parasitol. Vet., v. 20, n. 1, p. 1-12. 2011.

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