Envenenamento por picada de escorpião

Rosangela Ribeiro Gebara

Ultima atualização: 16 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Envenenamento por picada de escorpião, Intoxicação por picada de escorpião, acidente escorpiônico.

Nome em inglês

Scorpion poisoning, Envenomation by scorpion, Dog and cat scorpion stings.

Definição

O envenenamento pelo veneno do escorpião ocorre após a picada de um escorpião. Os escorpiões são aracnídeos com um corpo alongado e delgado e possuem uma cauda de cinco segmentos que pode estar arqueada nas costas. A cauda termina em uma glândula venenosa chamada de “ferrão”. Existem mais de 2.000 espécies de escorpiões no mundo, das quais de 25 a 35 são potencialmente letais. Os escorpiões estão agrupados em 13 famílias, cada uma com diferentes gêneros taxonômicos.

A espécie mais comum encontrada no Brasil é o Tityus serrulatus, conhecido popularmente como Escorpião-amarelo, comumente encontrado no Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil; e seu veneno causa graves acidentes com registro de óbitos, principalmente em crianças e pequenos animais. Esta espécie possui as pernas e a cauda amarelo-claro e o tronco mais escuro e mede até 7 cm de comprimento. Mas também encontram o Escorpião-amarelo-do-nordeste (T. stigmurus), o Escorpião-preto-da-amazônia (T. obscurus) e o Escorpiao marron (T. bahiensis).

Escorpião Amarelo - Tityus serrulatus

 

 

 

 

 

 

Escorpião-amarelo-do-nordeste - T. stigmurus

Escorpião-preto-da-amazônia - T. obscurus

Escorpião marron  - T. bahiensis

Devido aos hábitos domiciliares e à periculosidade da picada é responsável pela maioria dos acidentes escorpiônicos verificados no Brasil, principalmente nas regiões urbanas e peri-rurais.

Todos os escorpiões podem causar intensa dor local devido ao seu ferrão.

Escorpiões são principalmente noturnos. Eles tendem a se esconder debaixo de pedras, madeiras, entulhos de obras, roupas, plantas ou sapatos.

Escorpiões geralmente não são agressivos, mas atacam se ameaçados ou esmagados durante o movimento de se esticar a roupa de cama, ou colocar roupas ou sapatos, etc. Os animais são picados da mesma forma, deitando-se ou pisando sobre eles ou se aproximando deles para cheirar ou morder.

Fisiopatologia

O veneno de escorpião é uma mistura de proteínas e neurotoxinas. As neurotoxinas do escorpião contidas nas suas glândulas bloqueiam os canais de potássio e sódio no tecido nervoso, inibindo a transmissão neuromuscular.

O envenenamento provoca uma liberação maciça de catecolaminas e acetilcolina, que estimula tanto o sistema nervoso simpático quanto o parassimpático. Os efeitos hemodinâmicos incluem inicialmente a elevação da pressão arterial sistêmica e da pulmonar, seguida de uma diminuição gradual da frequência cardíaca, da pressão arterial e do débito cardíaco.

O envenenamento pode levar a sinais neurológicos, cardiovasculares, respiratórios e gastrointestinais. Pode ocorrer também quadros de miocardite; fragilidade osmótica aumentada de glóbulos vermelhos e defeitos de perfusão cardíaca. Os animais menores, como cães e gatos têm um risco maior de desenvolver sinais sistêmicos em comparação com cães de grande porte, uma vez que os sinais clínicos estão associados a quantidade de veneno em relação ao tamanho corporal do paciente.

No entanto, relatos de gatos que foram picados por escorpiões são mais raros, apesar do comportamento caçador dos felinos.

Achados de anamnese e manifestações clínicas

O diagnóstico de envenenamento escorpiônico na maioria das vezes é baseado na história clínica, nas manifestações clínicos e na localização geográfica.

Proprietário descreve quadro agudo de dor e vocalização do animal, geralmente associado a edema em local da picada.

Possíveis manifestações clínicas:

  • local da picada fica geralmente muito dolorido e hiperêmico
  • edema local ou em todo membro afetado
  • pode haver pilo-ereção e prurido no local da picada
  • hipersalivação e em alguns casos vômitos
  • parestesia do membro afetado
  • vocalização pela dor intensa
  • alteração de comportamento – maior agressividade pela intensa dor
  • midríase e nistagmo
  • claudicação ou animal fica sacudindo a pata afetada
  • pode ocorrer visão turva e priapismo
  • agitação – animal não consegue relaxar e dormir

Ao exame físico podemos encontrar:

  • taquicardia ou bradicardia;
  • dispneia e/ou taquipnéia e com o passar do tempo o animal pode desenvolver edema pulmonar secundário a disfunção cardíaca.
  • Febre
  • Mucosas hiperêmicas
  • Casos mais graves podem evoluir para edema pulmonar, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca e morte.

Procedimentos diagnósticos

Assim que o paciente receber os primeiros cuidados para estabilização dos sintomas mais graves, colher sangue para hemograma completo, bioquímica renal e hepática, eletrólitos (Ca, K, Na, P), glicemia, enzimas creatinaquinase(CK) e lactato-desidrogenase (LDH).

Monitoramento da pressão arterial e ritmo cardíaco (ECG)

RX tórax - em caso de suspeita de edema pulmonar.

Achados laboratoriais:

  • Neutrofilia,
  • Hiperglicemia
  • Hipocalemia
  • Elevações de ALT, AST, creatinina quinase (CK) e lactato desidrogenase, dependendo da evolução e tempo da picada.
  • Hipertensão, mas depois podem apresentar hipotensão, se houver diminuição do débito cardíaco
  • Eletrocardiografia (ECG): Taquicardia inicialmente, podendo evoluir para bradicardia e até arritmias.

Identificação do Escorpião: Testemunhar uma picada de escorpião e identificar a espécie de escorpião são as melhores ferramentas de diagnóstico.

Maior ocorrência

Não foram observadas predisposições quanto a sexo, raça ou idade.

Pacientes geriátricos ou pediátricos podem ter um risco maior de sinais sistêmicos.

Embora todas as picadas de escorpiões possam levar à uma dor intensa e a uma reação localizada, apenas algumas espécies são capazes de produzir sinais clínicos sistêmicos.

Terapia

Orientações iniciais ao proprietário do animal:

No caso de contato com o proprietário por telefone antes deste levar o animal a clínica, deve-se orientar para que lavem imediatamente o local da picada com água fria e sabão e apliquem compressas frias para ajudar a controlar o edema e a dor intensa local. E logo após levarem o animal imediatamente a cínica.

Se for possível, oriente o proprietário a capturar o escorpião, com segurança, e leva-lo a clínica em uma embalagem segura, hermeticamente fechada, para a correta identificação da espécie.

Orientar o proprietário a:

  • Não amarrar ou fazer torniquete no local da picada;
  • Não aplicar qualquer tipo de substância sobre o local da picada (fezes, álcool, querosene, fumo, ervas, urina), nem fazer curativos que fechem o local, pois isso pode favorecer a ocorrência de infecções;
  • Não cortar, perfurar ou queimar o local da picada;
  • Não dar nenhum medicamento ao animal e leva-lo o mais rápido possível a clínica veterinária

 

No Brasil a imunoglobulina heteróloga contra veneno de escorpião do gênero Tityus (escorpião amarelo, escorpião marrom, escorpião preto e etc.) é fabricada pelo Instituto Butantã em São Paulo - SP. E é distribuída em frascos- ampola de 5ml na concentração de 1,0 mg/ml. Mas este soro é produzido para o Sistema Único de Saúde (SUS) e destinado somente para uso em humanos (crianças e idosos).

Portanto no Brasil, o tratamento em pequenos animas se dá na maioria das vezes somente através da terapia de suporte.  Mas em locais onde é possível comprar ou utilizar soro antiescorpiônico de uso comercial, este deve ser aplicado o mais rápido possível, seguindo as orientações da bula.

O acesso venoso deve ser instaurado e a terapia analgésica deve ser instaurada o quanto antes. Se houver muita dor e hiperemia grave pode-se tentar um bloqueio anestésico com a infiltração de lidocaína a 2% (sem vasoconstritor) ao redor da lesão da picada e também associar o uso de analgésicos sistêmicos - dipirona associada a opioides (tramadol, meperidina) e/ou anti-inflamatórios não - esteroidais.

Terapia de suporte

Se houver sinais sistêmicos ou locais que indiquem grave reação alérgica, pode se administrar difenidramina a 2-4 mg/kg a cada 8 ou 12 horas VO, IM ou prometazina 0,2 mg/Kg a 0,5mg/Kg SC a cada 8 horas.

Pacientes com sinais sistêmicos mais graves ou com hipotensão, deve-se instaurar fluidoterapia intravenosa cristaloide e deve-se ficar atento as possíveis - hipertensão, hipotensão, arritmia cardíaca e edema pulmonar.

Se possível realizar monitoração constante do ritmo cardiaco (ECG) e PAS, e sob qualquer suspeita de edema pulmonar, realizar RX de tórax.

Monitoramento e Prognóstico

Monitore o animal por 24 horas para evidências de reações alérgicas ou sinais sistêmicos (edema pulmonar, hipertensão, etc).

Deve-se avaliar continuamente os parâmetros vitais e os níveis de dor.

Pacientes com sinais mais graves podem necessitar de mensuração constante da pressão arterial e ECG.

O prognóstico geralmente é bom, com muitos sinais clínicos resolvidos dentro de 24 horas.

Embora haja falta de dados em gatos, é possível que alguns indivíduos possam apresentar complicações mais sérias, como edema pulmonar, reações alérgicas e colapso cardiovascular.

Diagnóstico diferencial

Picada de aranha marrom, intoxicação por veneno de sapo, envenenamento de himenópteros, envenenamento por picada de cobra, picada de aranha viúva negra.

Literatura recomendada

Brites-Neto, J. (2019). ASPECTOS CLÍNICOS E TERAPÊUTICOS DO ENVENENAMENTO POR ESCORPIÕES EM CÃES E GATOSRevista De Ciência Veterinária E Saúde Pública6(2), 442-471. https://doi.org/10.4025/revcivet.v6i2.46911

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Situação epidemiológica dos acidentes por animais peçonhentos. Dados. Escorpiões. Disponível em: <http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/acidentes-por-animais-peconhentos/13692-situacao-epidemiologica-dados>

http://bvsms.saude.gov.br/ultimas-noticias/2867-picada-de-escorpiao-saiba-os-cuidados-e-o-que-fazer-em-caso-de-acidente

 

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