Endocardiose

Dr Cesar Martins de Souza

Ultima atualização: 29 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Degeneração mixomatosa da valva mitral (DMVM)

Doença valvar crônica de mitral

Nome em inglês

Mitral valve disease

Definição

A DMVM é uma doença degenerativa que acomete as valvas atrioventriculares, sendo que a esquerda (mitral), possui maior importância.

É a cardiopatia mais comum dos cães correspondendo a pelo menos 75% dos atendimentos cardiológicos.

Fisiopatologia

A fisiopatologia da doença é bem conhecida. O colágeno que forma a estrutura das valvas sofre uma alteração e elas se tornam incompetentes permitindo um refluxo sanguíneo do ventrículo para o átrio.

Por se tratar de uma afecção degenerativa, o volume regurgitante aumenta com o passar do tempo causando uma sobrecarga de volume atrial levando a dilatação do átrio e posterior dilatação ventricular.

Como esse processo normalmente ocorre do lado esquerdo do coração, um cão afetado de forma grave, desenvolverá sinais de insuficiência cardíaca esquerda – edema pulmonar (dispneia, tosse e cianose) e sinais de baixo débito (síncope, fraqueza e letargia).  

Etiologia

Ainda não possui uma causa conhecida

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

Embora a causa da DMVM continue desconhecida, normalmente afeta de maneira mais importante cães de pequeno e médio porte (< 20kg) sendo ainda mais frequentes em algumas raças como Poodle, Teckel e Cavalier King Charles.

Achados de anamnese

Devido sua importância clínica, a DMVM é umas das afecções mais estudadas e por isso, apresenta diretrizes para diagnóstico, classificação e tratamento. 

Classe funcional A : Pacientes que possuem alto risco de desenvolver a doença, porém sem nenhum achado de alteração estrutural cardíaca (sopro).

Classe funcional B: Pacientes que apresentem sopro sistólico mitral.

Esse grupo é dividido em 2 subgrupos:

B 1 - Pacientes assintomáticos que possuem nenhum ou discreto remodelamento cardíaco (dilatação de câmaras). 

B 2 - Pacientes assintomáticos que apresentem dilatação importante atrial e ventricular esquerdos detectados pelo RX de tórax e/ou exame ecocardiográfico. 

Classe funcional C : Pacientes que apresentaram ou estejam em edema pulmonar. 

Classe funcional D: Pacientes refratários ao tratamento convencional que necessitam de uma estratégia terapêutica diferenciada para se manterem estáveis. 

Procedimentos diagnósticos

O Exame ouro para avaliação DMVM é o Ecodopplercardiograma. Ele é capaz de estadiar sua gravidade com precisão.

Radiografias de tórax podem indicar dilatação de câmaras esquerdas e edema pulmonar. 

O eletrocardiograma não auxilia muito na identificação da endocardiose, mas pode mostrar arritmias (podem aparecer em cardiopatias graves) que normalmente piora o prognóstico e manifestações dos pacientes.

Hoje também podem ser realizados os marcadores cardíacos (especialmente o peptídeo natriurético - NT-proBNP). O NT-probnp aumenta com o estiramento ventricular, ou seja, um paciente dispneico com esse marcador marcadamente aumentado, provavelmente está em edema pulmonar cardiogênico.

Diagnósticos diferenciais

Pneumonia

Bronquite crônica

Dor

Tromboembolismo pulmonar

Colapso de traquéia

Terapia inicial

O tratamento para a DMVM varia conforme a classe funcional do paciente.

Cães agrupados em classe funcional A ou B1 não são beneficiados com tratamento. Sendo assim, esses pacientes possuem apenas como recomendação, reavaliação anual. 

Pacientes cuja classificação funcional seja B2 possuem aumento considerável de sobrevida quando recebem tratamento.

Atualmente, o tratamento indicado é inibidores da ECA (enalapril, benazepril, etc), pimobendam (0,25-0,3 mg/kg BID) e espironolactona (2 mg/kg SID) além de discreta restrição sódica na alimentação.

Alguns lugares do mundo possuem centros veterinários capazes de realizar correção cirúrgica da doença  valvar, no entanto, ainda é um procedimento muito caro e pouco oferecido.

O edema pulmonar cardiogênico pode ser diagnosticado de diversas maneiras (radiografias, exame físico, ecocardiograma e exames laboratoriais como Nt-pro BNP). 

A abordagem inicial do paciente em edema pulmonar consiste em aplicação de furosemida (IM ou IV) na dose de 2mg/kg a cada hora até remissão dos sintomas ou até 8 mg/kg em 4 horas.

Oxigenioterapia e tranquilizantes (como butorfanol, morfina ou até acepromazina) também são indicados.

Assim que o paciente for admitido, se houver disponibilidade, o pimobendam (via oral) também é fortemente indicado.

Em casos mais graves ou refratários, pode-se usar infusão contínua de nitroprussiato (1-15 ug/kg/min).

Nitroglicerina e dobutamina também podem ser utilizados. 

Uma vez que o paciente tenha sido estabilizado, ele deve ser mantido com uma dose de furosemida (normalmente 2 mg/kg BID podendo ser levada até para 4 mg/kg TID) somada as medicações usadas em pacientes B2. 

Pacientes que estejam refratários ao tratamento podem ser beneficiados com aumento da frequência do pimobendam (TID), além de outras medicações como hidralazina, amlodipina, hidroclortiazida e nitroglicerina além de restrição moderada importante de sódio. 

Atualmente existe uma opção mais potente que a furosemida, a torasemida.

A dose a ser usada é 1/10 da dose de furosemida que já estava sendo administrada.

Alguns pesquisadores relatam maior eficiência da torasemida e sugerem seu uso caso paciente demore a se recuperar do edema pulmonar.

Prognóstico

Reservado a mau.

Literatura recomendada

ACVIM consensus guidelines for the diagnosis and treatment of myxomatous mitral valve disease in dogs - 2019

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