Doença de Lyme

Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 08 FEV DE 2020

Nome em Inglês

Lyme Borreliosis

 

Sinônimos

Borreliose de lyme

Infecção por Borrelia

Definição

A doença de lyme é uma zoonose, transmitida através de vetores, principalmente os carrapatos do gênero Ixodes.

Acomete diversos sistemas e as manifestações clínicas podem ser neurológicas, cardíacas, cutâneas e articulares, tanto nos cães como nos humanos.

Já os gatos são aparentemente mais resistentes ao desenvolvimento da doença quando comparados aos cães.

 

Etiologia e Fisiopatogenia

A doença é causada por uma bactéria gram-negativa pertencente à ordem Spirochaetales, da família Spirochaetaceae e do gênero Borrelia.

As borrelias são espiroquetas, móveis e microaerófilas. Se reproduzem por divisão binária e estas podem ser observadas em microscopia de campo escuro, ou nos tecidos quando são corados com base de prata.

Ainda possuem várias proteínas de superfície OspA, OspB, OspC, OspE e OspF, quatro a oito flagelos periplasmáticos dotados de movimentos de translação. 

A Borrelia burdorferi sensu lato  é a causadora da doença de lyme e possui em seu complexo outras 17 genoespécies.

Isso é de importância diante dos diferentes quadros clínicos que podem ser observados nas diferentes espécies infectantes.

Comumente apesar das diferentes manifestações e características da lesões e sistemas acometidos, todas as espécies causam eritema migratório o que é um sinal considerado patognomônico da doença.

As borrelias dificilmente sobrevivem no ambiente e fora do hospedeiro.

Os carrapatos se infectam de modo geral quando picam animais portadores de espiroquetas e ao longo do seu ciclo biológico este se alimenta de mais de um hospedeiro. 

Para que aconteça a infecção o parasitismo deve ser de pelo menos 1 a 2 dias, este é o tempo suficiente para que ocorra a multiplicação inicial, atravesse o epitélio (hemolinfa), atinjam a glândula salivar e possam infectar o hospedeiro através da saliva.

Apenas um número restrito de animais ou humanos apresentam manifestações clínicas apesar da suscetibilidade ao contato com carrapatos ser grande.

Isso ocorre provavelmente por resposta imunológica do hospedeiro frente a infecção, porém quanto maior a exposição, maior o número de espiroquetas inoculadas e a imunidade do hospedeiro, podem aumentar a probabilidade de desenvolvimento da doença.

As evidências aos estudos mostrar que uma pequena porcentagem de cães desenvolvem doença clínica em comparação com a exposição quando baseado na soropositividade.

Supostamente, isso se deve a exposição a cepas infeciosas mas não patogênicas, ou em um número baixo de infecção por B. burdorferi e ao sistema imunológico eficiente. 

Depois que a bactéria entra através da picada no animal, ocorre multiplicação local, migração pela pele e estruturas próximas por via hemática, podendo atingir as articulações, coração e outros órgãos. 

As manifestações clínicas ocorrem devido a resposta inflamatória do hospedeiro, geralmente são respostas imunes geradas contra um antígeno.

No tecido nervoso há respostas frente aos proteínas imunogênicas do agente e as citocinas que acabam chegando ao tecido.

Uma resposta inflamatória diante de uma pequena quantidade de bactérias inoculadas se deve a replicação do DNA do plasmídeo e o envolvimento da interleucina  8 (IL-8) que faz recrutamento de neutrófilos para o local.

Estes podem ser encontrados no líquido sinovial produzindo poliartrite supurativa.

O desenvolvimento da artrite geralmente esta relacionada a resposta imune do organismo ao agente. 

Maior ocorrência

Os sinais não variam de acordo com a idade e sexo do animal.

A literatura sugere possível predomínio de doença clínica em cães da raça Golden Retriever e labradores.

Achados de anamnese

Inicialmente pode ser notado eritema no local onde foi a picada que desaparece após alguns dias.

Pode haver febre, inapetência, linfadenomegalia, aumento de volume articular e claudicação de membros pélvicos.  

Manifestações clínicas

Segundo a literatura em testes experimentais, notou-se a baixa ocorrência de doença clínica nos cães.

Podendo ocorrer de modo geral de 2 a 6 meses após a exposição e dependem do sistema imune do animal.

Geralmente os números de anticorpos aumentam na fase inicial da doença clínica.

Os achados de anamnese podem ser sinais inespecíficos encontrados em outras doenças e em cães soropositivos ou não. 

Nas infecções agudas causadas experimentalmente em cães, a síndrome de poliartrite é a mais evidente.

Ocorre disseminação do microrganismo através da pele, tecidos conjuntivos, musculares e articulares, o que leva a claudicação nos animais.

Geralmente o membro acometido inicial é o mais próximo da lesão causada pelo carrapato e podem ser transitórios.

Contudo, as alterações decorrente  poliartrite tendem a ser progressivas. 

A injúria renal aguda pode ocorrer em cães afetados naturalmente, levando a glomerulonefrite, azotemia, proteinúria e uremia.

Os sinais clínicos nos cães pode durar por até 8 semanas. 

Há relatos ainda de meningite focal leve, encefalite e perineurite sem sinais neurológicos em cães experimentalmente infectados com a doença de lyme.

Já em cães naturalmente infectados podem ser encontrados sinais de artrite reumatóide e arritmia cardíaca decorrente a miocardite. 

Em gatos não há dados sobre a doença clínica em felinos naturalmente infectados. 

 

Procedimentos diagnósticos

A histórica clínica e os achados de anamnese são bastante importantes para a suspeita de doença de lyme.

Dados sobre o ambiente onde o animal vive e contato recente com carrapatos devem ser questionados.

Diante do que já foi discutido neste estudo, é claro que os sinais são muitas vezes inespecíficos e as manifestações clínicas juntamente aos testes diagnósticos nos elucidarão mais sobre a possibilidade de ocorrer a doença de lyme propriamente dita.

Sabe-se ainda que os cães podem demorar até 4 semanas para apresentar títulos sorológicos para a doença, então resultados falso-negativos podem ocorrer na fase inicial de infecção.

Os achados laboratoriais tendem a acompanhar as manifestações clínicas apresentadas por cada paciente.

Em geral, aqueles que manifestam artropatias e alterações renais, terão ao hemograma anemia arregenerativa, leucopenia, tombocitopenia, azotemia e uremia. 

Já na urinálise podem apresentar hematúria, hemoglobinúria, bilirrubinúria e proteinúria. 

Na análise do líquido sinovial de cães com artropatia, o aumento da proteína e contagem celular (95% neutrófilos) são os achados mais evidentes.

A biópsia dos tecidos pode ser realizadas e encaminhadas ao laboratório para isolamento e identificação do agente.

Estes são mais elucidativos quando comparados aos testes sorológicos.

Porém há baixa sensibilidade na fase tardia da doença, o tempo para o cultivo e a possibilidade de baixa carga bacteriana são desvantagens para este teste. 

É possível ainda enviar o carrapato para diagnóstico de doença de lyme.

Neste caso, serão realizados testes para identificação de espiroquetas no intestino, glândula salivar e hemolinfa destes vetores.  

A imuno-histoquímica é uma técnica que traz excelentes resultados para a observação da borrelia nos tecidos, bem como é possível realizar marcações antigênicas do agente no tecido.

As provas sorológicas ainda são as mais utilizadas diante da dificuldade em isolamento e detecção de pequenas quantidades das bactérias nos tecidos.

As mais frequentemente empregadas são as técnicas de reação de imunofluorescência indireta (RIFI) e o Elisa.

E em caso de dúvidas ainda é possível realizar como prova complementar o Western Blot, este é um teste considerado padrão ouro. 

O PCR (reação em cadeia de polimerase), é um teste espécie-específico que consegue detectar um número menor de microrganismos nas amostras (biópsia de tecido, líquido sinovial e pele) e tem alta sensibilidade na fase aguda da doença.

Já na fase tardia e após o uso de antibióticos se torna pouco sensível.

É provável que nesta fase a persistência da doença ocorra devido a imunidade e não mais a presença do agente.

 

Diagnóstico diferencial

Outras doenças causadas por espiroquetas como leptospirose e erliquiose.

Artrite séptica

Artrite reumatóide

Lúpus eritematoso sistêmico

Terapia inicial

Diferentes protocolos com antibióticos são sugeridos para animais com doença de lyme estes são empregados de forma empírica uma vez que o diagnóstico pode ser difícil.

Nos cães a doxiciclina é o medicamento de escolha para o tratamento e deve ser usado por no mínimo de 30 dias.

Em filhotes deve-se preconizar pelo uso de amoxicilina, uma vez que a doxiciclina pode causar mancha nos dentes, unhas e na pele.

As quinolonas e os aminoglicosídeos são resistentes as borrelias. 

Terapia de suporte e manutenção

Em pacientes com sinais de artrite é recomendado o uso de anti-inflamatórios não esteroidais, com o intuito de diminuir a dor local.

Já os que apresentem comprometimento renal, deve-se empregar o tratamento adequado, podendo ser útil o uso de expansores de volume e diurese osmótica. 

Nos animais gravemente acometidos com estes sinais as lesões são de caráter progressivo. 

O acompanhamento sorológico indicado é de 6 meses nos animais que foram tratados e sabe-se que nestes animais podem desenvolver recidivas em casos de imunossupressão. 

Outras medidas devem ser tomadas de acordo com o ambiente em que os animais vivem e tentar estabelecer protocolos para o controle de carrapatos. 

O tratamento da doença de lyme é controverso em pacientes que são soropositivos mas não apresentam manifestações clínicas de comprometimento renal ou articular.

Segundo o ACVIM, a maioria dos veterinários não recomenda o tratamento nestas condições. 

Prognóstico

Quando os animais apresentam sinais clínicos, a resposta ocorre após 24 – 48 horas com o uso de antimicrobianos.

O tratamento é indicado o mais precoce possível, visando diminuir as alterações nas articulações, nos tecidos conjuntivos e inflamatórias que podem evoluir.

Mesmo após o tratamento pode ocorrer recidiva do quadro clínico. 

Em cães com comprometimento renal o prognóstico é reservado e depende da evolução da lesão renal. 

Literatura recomendada

GREENE, Craig E. et al. Borreliosis: Lyme Borreliosis. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2006. cap. 45, p. 418-436. ISBN 978-1-4160-3600-5.

 

Informações para tutores

A doença de Lyme, é uma infecção causada por bactéria transmitida através da picada de carrapatos em animais e seres humanos.

Os gatos são considerados resistentes a infecção e os cães apesar da facilidade de contato com carrapatos a incidência das manifestações clínicas é baixa. 

Quando investigados os animais podem apresentar positividade nos testes e não demonstrarem sintomas, e frente a isso não há indicação para tratamento nestas condições.

Se houver doença clínica os animais podem apresentar principalmente problemas articulares, geralmente a vermelhidão no local da picada e claudicação do membro envolvido.

Nestes casos, o médico veterinário pode realizar exames diagnósticos para confirmar a doença e instituir o tratamento a base de antibióticos que duram geralmente 30 dias.

Quando colocados em prática rapidamente os sinais tendem a diminuir mas pode ocorrer recidiva mesmo após o término do tratamento.

Como medida preventiva deve-se realizar o controle de carrapatos nos cães com medicamentos indicados pelo clínico.

Referências

PINHEIRO, Sônia Regina. Doença de Lyme. In: MEGID, Jane et alDoenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 8, p. 87-94. ISBN 978-85-277-2789-1.

 

GREENE, Craig E. et al. Borreliosis: Lyme Borreliosis. In: GREENE, Craig E. Infectious Diseases of the Dog and Cat. 3. ed. St. Louis: Elsevier, 2006. cap. 45, p. 418-436. ISBN 978-1-4160-3600-5.

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