Disfunção cognitiva no cão idoso

Claudia Inglez

Ultima atualização: 26 FEV DE 2020

Disfunção cognitiva no cão idoso

Síndrome da disfunção cognitiva

Demência

“Alzheimer” canino

Nome em inglês

Canine cognitive dysfunction

Cognitive dysfunction syndrome

Dementia

Definição

Enfermidade neurológica degenerativa em cães idosos, que afeta a interação das funções cerebrais com estímulos do meio ambiente, como memória, percepção, consciência, aprendizagem e tomada de decisões. Por possuir algumas similaridades, é comparada à doença de Alzheimer em humanos.

Fisiopatologia

Inúmeras alterações são descritas, tais como:

- Acúmulo de substância β-amilóide (uma proteína neurotóxica) formando placas, e comprometendo a função dos neurônios, sinapses e neurotransmissores na região do córtex cerebral e hipocampo.

-Alterações vasculares como micro hemorragias e micro infartos, comprometendo a oxigenação e o metabolismo glicêmico.

- Diminuição dos níveis de dopamina e liberação de radicais livres resultando em peroxidação lipídica e morte celular

- Diminuição de neurônios colinérgicos no prosencéfalo.

- Degeneração axonal, redução no número de neurônios, alterações gliais e desmielinização

- Atrofia cerebral e dos gânglios basais, retração dos giros cerebrais com aumento do número de células gliais. Nota-se consequentemente um aumento dos ventrículos e preenchimento das áreas atrofiadas pelo fluido cerebroespinhal. Há também espessamento das meninges.

Tais alterações sugerem que esta condição pode ser utilizada como modelo da enfermidade de Alzheimer em humanos.

 

 

Etiologia

Relacionada ao processo de envelhecimento.

Maior ocorrência

Parece ocorrer mais em fêmeas e animais castrados, e principalmente em animais idosos de qualquer raça (acima dos 9 anos de idade).

Anamnese

São reportadas principalmente alterações comportamentais como caminhar compulsivamente e sem propósito, latidos e vocalização sem motivos, troca do ciclo sono/vigília com caminhar e vocalização noturnos, eliminação de fezes e urina em locais inadequados, perda de comandos aprendidos. Também reportam desorientação e incapacidade de resolver situações como ficar preso entre móveis e objetos. Alguns tutores relatam agressividade com membros da família ou outros animais, ou desinteresse com as atividades cotidianas.

O início dos sinais pode passar desapercebido ou não ser considerado relevante para alguns tutores, sendo muitas vezes o animal levado para avaliação quando os déficits cognitivos estão intensificados.

 

Manifestações clínicas

Trata-se de enfermidade de curso crônico e progressivo. Utilizando-se o acrônimo DISHAAL, as manifestações clínicas podem ser classificadas conforme se segue:

D (desorientation) = desorientação no espaço e no tempo

I (interactivity) = alteração na interatividade social com humanos e outros animais

S (sleeping-wake cycle) = alteração no ciclo sono/vigília

H (housesoiling) = eliminação de fezes e urina em locais indevidos

A (activity) = alteração no nível de atividade, excessiva, repetida ou diminuída.

A (anxiety) = ansiedade

L (learn and memory) = perda de comandos previamente aprendidos, animal perdido em locais conhecidos.

Disfunção vestibular e convulsões também podem ocorrer, podendo ter uma causa base vascular (como o ataque isquêmico transitório)

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico presuntivo da disfunção cognitiva no cão idoso é feito com base no histórico, nas manifestações clínicas e na exclusão de outras possíveis causas para os sinais apresentados.

Enfermidades que causam dor ou ansiedade também podem levar a mudanças de comportamento, como osteoartrites, tumores, discopatias, endocrinopatias, infecções, hipertensão e alterações metabólicas por doença renal ou hepática.

É pertinente lembrar que por tratarem-se de animais idosos, frequentemente outras enfermidades podem ocorrer simultaneamente. Assim, um exame físico completo, associado ao um check up para pesquisar enfermidades concomitantes é recomendado.

O exame neurológico nestes animais pode revelar andar compulsivo, desorientação, aprisionamento entre móveis e objetos. A princípio, reações posturais e exame dos nervos cranianos não apresentam alterações salvo na presença de outras condições.

O líquido cérebro espinhal não apresenta alterações. A ressonância magnética pode revelar atrofia cerebral e consequente aumento de ventrículos, além de sulcos proeminentes e atrofia do lobo temporal medial. A espessura da aderência intertalâmica mensurada por ressonância magnética é significativamente menor em cães com disfunção cognitiva (<5mm nas imagens transversais em sequências ponderadas em T1 e T2) quando comparada a cães normais.A ressonância magnética também tem valor principalmente na exclusão de outras causas de encefalopatias. Porém, devido à baixa acessibilidade a este exame em muitas regiões, questões financeiras e a necessidade de anestesia geral, muitas vezes o diagnóstico clínico é feito quando o a anamnese, exame físico e neurológico não apresentem alterações que justifiquem as alterações comportamentais. Sendo assim, o diagnóstico pode ser feito com base na exclusão de outras enfermidades após exame físico e exames complementares, além da pontuação nos questionários comportamentais, sugestiva de disfunção cognitiva.

O diagnóstico definitivo seria por histopatologia após necrópsia, onde observa-se acúmulos microscópicos de proteína β-amilóide em várias áreas encefálicas.

 

Diagnósticos diferenciais

Neoplasia intracraniana

Doenças inflamatórias/infecciosas

Encefalopatias metabólicas

Terapia inicial

É importante ressaltar que até o momento não há cura para a disfunção cognitiva.

Múltiplas estratégias são recomendadas com o intuito de amenizar e /ou retardar  a progressão das deficiências cognitivas, sendo empregadas as abordagens farmacológica, nutricional e ambiental.

1- Fármacos:

- Selegilina: recomenda-se iniciar com 0,5mg/kg a cada 24 horas por 4 semanas, e caso não haja resposta, pode-se elevar para 1,0 mg/kg a cada 24 horas, preferencialmente pela manhã em cães com alteração do ciclo sono/vigília. Trata-se de um inibidor da enzima monoaminoxidase (MAO), visando aumentar os níveis cerebrais de catecolaminas e dopamina. No entanto, a eficácia deste fármaco é ainda duvidosa, sendo baseada em questionários respondidos por tutores. A resposta ao tratamento pode ser notada ao redor de duas semanas, mas pode levar dois meses. Não deve ser administrada e juntamente com outros inibidores da MAO, opióides, antidepressivos tricíclicos e inibidores de receptação de serotonina

- S-adenosilmetionina (SAMe) –18,5 mg/kg uma vez ao dia, uma hora antes da alimentação. Trata-se de uma molécula endógena formada por metionina e ATP, particularmente abundante no fígado e cérebro, e atua diminuindo o estresse oxidativo. Humanos com Alzheimer apresentam deficiência de SAMe no cérebro e líquido cerebroespinhal, sendo a suplementação uma potencial estratégia terapêutica. Resposta esperada entre 4 a 8 semanas.

- Propentofilina- 2,5-5 mg/kg PO BID-melhora o fluxo sanguíneo cerebral promovendo vasodilatação e diminuindo a viscosidade sanguínea, mas há pouca ou nenhuma evidência da eficácia deste medicamento.

- Gabapentina  (10-30 mg/kg a cada 12-8 horas) e Pregabalina (2-4 mg/kg a cada 12-8 horas)  no controle da ansiedade e da dor crônica.

- Melatonina (1-9mg/cão) para cães com troca do ciclo sono-vigília, 30 minutos antes do horário de dormir.

2- Dieta:

Dieta rica em antioxidantes (tocoferol, beta-caroteno, carotenoides, flavanoides, vitamina C e E); cofatores mitocondriais, (ácido alfa-lipóico e L-carnitina), ácidos graxos poli-insaturados ômega 3 e ômega 6, e triglicerídeos de cadeia média podem ajudar na melhora da função cognitiva e retardar a progressão da doença, visando atuar contra o estresse oxidativo e reduzindo a produção de radicais livres e seus metabólitos, atuando também no metabolismo energético cerebral.

- Alguns fitoquímicos naturais como cúrcuma, resveratrol, catequinas) podem ter um potencial terapêutico também pela suas propriedades anti-oxidantes.

3- Enriquecimento ambiental-prática regular de exercícios, introdução de novos brinquedos melhora a função e atrasa o declínio cognitivo. Deixar o animal ativo durante o dia, fornecer banhos de sol. Levá-lo mais vezes para urinar e defecar.

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