Diabetes Mellitus Canino

Dr Leandro Haroutune Hassesian Galati

Ultima atualização: 02 MAR DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Diabetes Melito

Nome em inglês

Diabetes Mellitus

 

Definição

O Diabetes Mellitus pode ser classificado como uma síndrome, uma vez que abrange uma gama de manifestações, de etiologias distintas, porém todas resultado da insuficiência ou incapacidade da produção de insulina pelo pâncreas, ou ainda, decorrente de fatores que impactam na correta ação deste hormônio nos tecidos.

Fisiopatologia

- Diabetes Mellitus Tipo I

No Tipo I, também denominado Diabetes Mellitus Insulina-Dependente, o paciente tem hipoinsulinemia persistente, e o uso de insulina endógena se faz necessária desde o momento do diagnóstico. Estes pacientes sofrem da diminuição numérica e volumétrica de células Beta nas ilhotas pancreáticas, bem como degeneração e vacuolização destas. 

- Diabetes Mellitus Tipo 2

No Tipo II, também denominado Diabetes Mellitus Não Insulina-Dependente, o paciente sofre da chamada resistência insulínica, em conjunto com perda da função das células Beta sem perda de sua massa, e ainda, defeitos nos receptores de insulina. De modo geral esses pacientes não necessitam de insulina exógena, contudo, em alguns casos pode se fazer necessário no início da terapia. Esta forma não é bem documentada em cães, em contraste do que ocorre no homem e em felinos.

Etiologia

- Diabetes Mellitus Tipo I

Existem evidências de um importante componente autoimune no desenvolvimento da doença, contudo, este não é o único fator, pois existe importante envolvimento de componentes hereditários, fatores ambientais, comorbidades, fármacos, obesidade e pancreatite.

- Diabetes Mellitus Tipo II

Os mecanismos e a ocorrência não são elucidados no cão.

Maior ocorrência

Na rotina clínica o Diabetes Mellitus pode representar 0,005 a 1,5% dos casos.

As cadelas têm o dobro de ocorrência quando comparadas aos cães.

Machos não esterilizados apresentam maior risco de desenvolvimento da doença. 

Há maior incidência em relação aos cães sem raça definida nas raças Poodle toy e miniatura, Australian Terrier, Schnauzer, Labrador, Pinscher, Samoieda, Pug, Fox Terrier, Keeshound, Bichon Frisé, Spitz, Husky Siberiano, Dachshund e Cocker.

A faixa etária dos cães mais acometidos é de 7 a 11 anos de idade.

Achados de anamnese

A anamnese minuciosa geralmente revela a clássica apresentação dos 4 “Ps”: perda de peso, polifagia, poliúria e polidipsia. 

É achado comum também a queixa da catarata diabética, ou ainda, histórico de estro recente ao início das manifestações.

Fraqueza e letargia também são bastante comuns.

Manifestações clínicas

As manifestações mais exuberantes são a perda de peso progressiva, polifagia, polidipsia e poliúria (Os 4 “Ps”).

Os pacientes se mostram muitas vezes apáticos e prostrados.

Quando da cetoacidose diabética concomitante (presente em cerca de 40% dos casos no momento do diagnóstico) os pacientes podem apresentar êmese e anorexia, bem como alterações do estado mental. 

Devido ao fato do Diabetes Mellitus poder estar associado à comorbidades desencadeantes (tais como pancreatite aguda, sepse, piometra, hiperadrenocorticismo e corticoterapia prolongada), estas devem ser identificadas e manejadas adequadamente.

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico se dá pela evidenciação dos achados clínicos clássicos, hiperglicemia persistente após 8 horas de jejum e glicosúria.

No Diabetes Mellitus não complicado, os paciente apresentam glicemia entre 250 e 450mg/dL.

A glicosúria estará presente nos pacientes em que a glicemia foi superior ao limiar de filtração renal, qual seja no cão, de 180 a 200mg/dL.

A densidade urinária do paciente não tratado tendo a ser superestimada devido à presença de glicose, e deve estar geralmente superior a 1,025-1,035.

A cetonúria pode estar presente no momento do diagnóstico.

Pode haver discreto aumento das enzimas hepáticas FA e ALT, tipicamente menores que 500 U/L.

A dosagem de frutosamina sérica pode ser auxiliar, uma vez que demonstra a de forma confiável a estimativa média da glicemia nas últimas 2 a 3 semanas.

Cães sadios apresentam resultados geralmente entre 225 e 375 µmol/L.

Diagnósticos diferenciais

São diferenciais de Diabetes Mellitus a hiperglicemia relacionada ao estresse ou pós-prandial, o hiperadrenocorticismo, o diestro das cadelas, a pancreatite, o feocromocitoma, doença renal crônica, terapia com glicocorticoides e progestágenos e trauma crânio-encefálico.

Terapia inicial

A insulinoterapia com insulina NPH, uma insulina intermediária, deve seguir frequência de a cada 12 horas, pela via subcutânea, imediatamente após as refeições. As doses podem variar de 0,2 a 1UI/kg, sendo recomendado doses iniciais de 0,25UI/kg em cães com glicemia < 360mg/dL e 0,5UI/kg em cães com glicemia > 360mg/dL. Esta insulina é a mais comumente empregada na rotina clínica, devido seu menor custo e fácil aquisição.

A insulina lenta, de origem suína, a Caninsulin®, também pode ser uma boa opção na insulinoterapia de cães.

Seu manejo é semelhante ao da NPH, contudo deve-se atentar que esta é 2,5 vezes menos potente que aquela, devendo-as fazer o ajuste de dose, já que as recomendações desta são baseadas na utilização de seringas U40. Portanto, para o uso em seringas U100 (as tradicionais em humanos), a dose determinada de 0,2 a 1UI/kg deve ser multiplicada em 2,5 vezes.

As insulinas de longa ação, análogos da insulina humana, glargina e detemir também podem ser usadas no controle glicêmico de cães.

A insulina glargina forma cristais subcutâneos de liberação lenta, e tem dose de 0,25UI/kg a cada 12 horas.

Já a insulina detemir tem liberação lenta devido ligação a proteínas plasmáticas, podendo ter efeitos superiores a 24 horas, portanto, sua dose inicial deve ser de 0,1UI/kg a cada 24 horas.

Os animais com controle satisfatório mantém glicemia entre 150 e 180 mg/dL cerca de 6 a 8 horas após a administração da insulina, ou ainda, 150 a 300 mg/dL sob jejum de 12 horas.

Em pacientes cuja glicemia alcance valores inferiores a 150mg/dL, aconselha-se redução da dose da insulina em 25%.

Terapia de suporte e manutenção

São medidas importantes no manejo em longo prazo do Diabetes Mellitus a adequação do escore de condição corporal (ECC), caso haja obesidade concomitante.

A esterilização de fêmeas após o controle das manifestações (a fim de diminuir os efeitos relacionados ao estro e diestro), uso de dietas com carboidratos complexos e de baixo índice glicêmico (dietas próprias para animais diabéticos ou obesos), controle de comorbidades a exemplo do hiperadrenocorticismo e cuidados na administração de medicamentos indutores de resistência insulínica (p. ex. glicocorticoides).

Prognóstico

O prognóstico é variável, sobretudo na dependência da existência de comorbidades desencadeantes que sejam reversíveis e da resposta individual à terapia insulínica.

Os seis meses iniciais da terapia são críticos, devido à maior taxa de ocorrência de complicações e ao período de adaptação dos proprietários em se adequar à rotina da insulinoterapia e manejo do paciente.

A estimativa de vida após o diagnóstico é muito variável, sendo em média de 3 a 5 anos após o diagnóstico.

Literatura recomendada

  • Pöppl A. G.; Elizeire M. B. Diabetes Mellitus em Cães In: Jericó, M. M.; Andrade Neto, J. P.; Kogika M. M Tratado de Medicina Interna de Cães e Gatos. Guanabara Koogan, 1 ed., 2015.
  • Feldman E. C.; Nelson R. W.; Reusch C.; Scott-Moncrieff J. C.; Behrend E. The Endocrine Pancreas In: Canine & Feline Endocrinology. Elsevier, 4d, 2015.
  • Mooney, C. T.; Peterson M. E. Diabetes Melito In: Manual de Endocrinologia em Cães e Gatos. Roca, 4d., 2015.
  • Nelson, R. W.; Couto C. G. Disorders of the Endocrine Pancreas In: Small Animal Internal Medicine. Elsevier, 5ed, 2014.
  • Behrend E., Holford A., Lathan P., Rucinsky R., Schulman R. AAHA Diabetes Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association; 54(1):1-21, 2018.

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