Conjuntivite por Clamídia

Dra Flavia Rodrigues Souza Paes

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Conjuntivite bacteriana 

Complexo respiratório felino

Nome em inglês

Chlamydial conjunctivitis

Definição

Inflamação da conjuntiva (mucosa vascularizada que recobre a porção anterior do bulbo ocular e reveste internamente as pálpebras e terceira pálpebra) causada pela bactéria Clamidophila felis.

Fisiopatologia

A infecção por C. felis é adquirida por gatos principalmente através de contato próximo, objetos contaminados, ou, em menor escala, por transmissão por aerossóis.

Os filhotes podem ser infectados pela mãe no nascimento.

Em alguns gatos infectados, o organismo é disseminado em secreções vaginais e pelo reto, bem como em secreções oculares.

O organismo replica-se no citoplasma de células epiteliais conjuntivas, mas também se espalha através da corrente sanguínea para vários outros tecidos.

O período de incubação é de 3 a 5 dias.

Depois do início da conjuntivite aguda, a infecção pode persistir por meses, e pode vir acompanhada de sinais leves de conjuntivite, ou, em alguns casos, nenhum sinal clínico de doença.

As coinfecções por outros agentes como o calicivírus felino, herpesvírus felino tipo 1, Bordetella ou Mycoplasma aumentam a gravidade clínica da infecção.

Outras bactérias também atuam como invasoras secundárias e pioram a doença.

Não está claro se a C. felis pode causar doença reprodutiva em gatos.

Etiologia

A Clamydophila felis é uma bactéria gram negativa intracelular obrigatória.

Em 1999, a família Chamydiaceae foi dividida em dois gêneros: Chlamydia e Chlamydophila.

A Chlamydophila felis é o principal microorganismo que acomete os felinos e anteriormente era conhecida como Chlamydia psittaci variante felis.

Esse agente é encontrado no olho, sistema respiratório, gastrointestinal e genitourinário do gato. Há relatos de transmissão zoonótica do agente.

Maior ocorrência

A doença é mais comum em filhotes e gatos jovens.

Filhotes com menos de 2 meses de idade podem ser protegidos pelos anticorpos maternos, porém foram descritas infecções neonatais.

Não há predisposição sexual para a infecção e gatos de raças puras são mais predispostos.

Anamnese

São relatados sintomas de infecção ocular, secreção ocular serosa a purulenta, espirros, blefaroespasmo e edema de conjuntiva.

Devem ser investigados contatos com outros gatos infectados e deve ser questionada a origem do paciente.

Manifestações clínicas

Os gatos afetados apresentam secreção ocular serosa que pode evoluir para mucopurulenta, quemose de moderada a intensa dependendo da gravidade da infecção. A infecção geralmente é bilateral, mas pode ser unilateral. Hiperemia conjuntival é comum e acomete também a terceira pálpebra e em alguns casos pode haver a formação de folículos. O acometimento da córnea não é comum e quando acontece pode estar associada a infecção concomitante por herpesvírus felino(HVF-1).

Os animais acometidos também podem apresentar sintomas de infecção do trato respiratório superior.

Nesses casos podem apresentar descarga nasal serosa ou mucopurulenta, espirros, febre, letargia e dispnéia.

Esses sintomas quando presentes geralmente estão associados a infecção por HVF-1, calicivírus, Bordetella spp. e  Mycoplasma spp.

Ou a outras infecções bacterianas secundárias (Pasteurella spp., Pseudomonas spp., Streptococcus, Staphylococcus).

 

Procedimentos diagnósticos e resultados esperados

O diagnóstico desta conjuntivite consiste em exames para detectar a presença do agente.

  • Sorologia: A pesquisa de títulos de anticorpos tem valor limitado. Os valores de IgM não têm uma elevação significativa e a vacinação pode interferir na interpretação dos resultados.
  • PCR: o PCR quantitativo pode detectar infecções por C. felis. Para todos os testes diagnósticos que detectam clamídias, deve ser feita uma tentativa de coleta de números suficientes de células epiteliais infectadas. Em alguns estudos o PCR teve uma sensibilidade maior que a cultura em gatos não tratados, sendo essa próxima a 85%. O PCR também tem a capacidade de detectar DNA do agente mesmo que esse esteja inviável.
  • Cultura: a cultura pode ser utilizada para isolar o agente. O maior número de agentes é encontrado em swabs conjuntivais, também podem ser utilizados swabs nasais ou de faringe. Para a coleta a mucosa deve ser esfregada vigorosamente com um swab de algodão. As amostras devem ser refrigeradas e enviadas ao laboratório em no máximo 24 horas.
  • Elisa: existem no mercado kits disponíveis para pesquisa de antígenos para C. felis, porém eles são menos sensíveis que a cultura.
  • Citologia: raramente podemos encontrar corpúsculos de inclusão citoplasmática basofílicos em amostras de swab conjuntival. 

Diagnósticos diferencias

É importante diferenciar a conjuntivite por clamídia de conjuntivites por deficiência de lágrimas e alérgicas.

Também deve ser feita a tentativa de diferenciar das conjuntivites causadas por calicivírus felino e herpesvírus felino tipo 1, embora em alguns casos essas infecções se apresentem juntas.

Terapia inicial

As infecções por clamídia em geral são tratadas com antibióticos da categoria das tetraciclinas.

A administração oral de doxiciclina na dose de 5 a 10 mg/kg a cada 12 a 24 horas por 3 a 4 semanas resulta em resolução clínica na maioria dos casos.

A doxiciclina é conhecida por causar esofagite em gatos, para evitar deve ser administrada água na seringa após a administração do medicamento ou usar a forma líquida. Recomenda-se o tratamento de todos os gatos de uma colônia por 4 semanas.

O tratamento deve continuar pelo menos por 2 semanas depois que os sinais clínicos se resolverem. 

Para gatos que não toleram doxiciclina ou são muito jovens, a amoxicilina-clavulanato é uma alternativa adequada na dose de 12,5 a 25 mg/kg via oral a cada 12 horas.

A azitromicina também é efetiva no tratamento da clamidiose na dose de 5-10 mg/kg a cada 24 horas, apesar de não apresentar eliminação total do agente.

Em gatos infectados experimentalmente, a eficácia da enrofloxacina na dose de 5mg/kg a cada 24 horas foi semelhante à da doxiciclina, porém é contra-indicada em filhotes e pode causar degeneração retiniana em felinos.

O tratamento tópico deve ser sempre utilizado em associação ao sistêmico.

Devem ser utilizadas pomadas de tetraciclina 3-4 vezes ao dia por 3 semanas para auxiliar na eliminação do agente.

Os produtos a base de eritromicina, cloranfenicol e fluorquinolonas podem ser uma alternativa.

É necessário que se faça sempre a higienização das narinas e dos olhos com solução fisiológica.

Podem ser utilizados descongestionantes nasais e inalação para melhora do quadro e fluidoterapia caso haja desidratação.

Também devem ser tratados outros agentes que possam estar causando co-infecção.

Terapia de manutenção

O PCR pode ser utilizado para monitorar a eficácia do tratamento e a terapia mantida por pelo menos 28 dias.

Alguns gatos vão se tornar um reservatório para a C. felis e persistir liberando o agente para o ambiente. 

Os anticorpos maternos para C. felis podem proteger o filhote até 9 semanas de idade.

Vacinas inativadas estão disponíveis no mercado para proteção contra C. felis. Ela não impede a colonização do agente, mas diminui a replicação do mesmo e atenua os sinais clínicos da doença.

No meio-ambiente o agente é facilmente eliminado por detergentes, o que é importante para manejo de abrigos e gatis.

Prognóstico

O prognóstico para conjuntivite é bom e geralmente os pacientes já apresentam melhora parcial do quadro em 24 a 48 horas.

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http://provet.com.br

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