Colapso de traqueia

Dra. Paola Lazaretti 17-09-2019

Ultima atualização: 10 FEV DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Colapso traqueal, traqueomalácia, malácia traqueal.

Nome em Inglês

Tracheal collapse

Definição

Colapso de traqueia se refere à redução do diâmetro da luz traqueal dificultando a passagem de ar. Esta condição ocorre comumente em cães de raça pequenas e miniaturas. O colapso traqueal ocorre por enfraquecimento da cartilagens dos anéis traqueais, pela redundância da membrana traqueal, ou ambos. 

Colapso de traqueia primário é raramente relatado em gatos.

Fisiopatologia

A traqueia é uma estrutura tubular composta por anéis de cartilagem em formato de C (35-45 anéis), alternadas com um ligamento anular elástico, a traqueia normal é firme, porém flexível.

Dorsalmente as extremidades livres das cartilagens em formato de C são unidas pela membrana traqueal dorsal que é composta de mucosa, tecido conjuntivo e músculo traqueal.

Normalmente a rigidez dos anéis de cartilagem impede o colapso da traqueia, e permite apenas mudanças mínimas no diâmetro intraluminal em resposta a alterações de pressão decorrente da respiração e tosse.  

O colapso traqueal ocorre devido a frouxidão da membrana dorsal traqueal ou enfraquecimento das cartilagens traqueais. O colapso de traqueia é classificado quanto a localização de ocorrência: cervical ou extratorácico e intratorácico, mas frequentemente ambas as regiões estão afetadas.

Vários segmentos da traqueia podem estar envolvidos e o colapso pode se estender até os brônquios. 

Observa-se dispneia durante inspiração devido ao colabamento da porção cervical da traqueia,  e dispneia durante a expiração devido o colabamento da porção intratorácica da traquéia, quando a pressão intratorácica aumenta e exerce pressão positiva sobre a via aérea.

Classificação

Quatro graus de colapso traqueal foram descritos: 

Grau I: A membrana traqueal discretamente flácida, a cartilagem mantém a forma normal, o tamanho do lúmen é reduzido em 25%.

Grau II: A membrana traqueal é flácida e pendular, a cartilagem é parcialmente achatada, o tamanho do lúmen é reduzido em 50%.

Grau III: A membrana traqueal está quase em contato superfície dorsal da cartilagem, a cartilagem é quase plana, o tamanho do lúmen é reduzido em 75%.

Grau IV: A membrana traqueal está deitada na sobre a superfície dorsal da cartilagem, a cartilagem é achatada e pode se inverter, o lúmen é essencialmente fechado.

Etiologia

A causa exata do colapso de traqueia não foi determinada, e parece ter origem multifatorial. A literatura indica que fatores primários sejam genéticos e fatores secundários sejam nutricionais, alérgicos, neurológicos, degenerativos, relacionados à doença cardíaca, e doenças das vias aéreas.

Alguns animais com colapso de traqueia apresentam deficiência de sulfato de condroitina e glicosaminoglicanas na cartilagem, tornando-a mais fraca, além disto a função dos condrócitos pode ser comprometida, reduzindo a produção de componentes da matriz da cartilagem. Os animais com distúrbios congênitos e hereditários geralmente apresentam os sintomas mais precocemente.

Outros fatores que contribuem para o desenvolvimento e exacerbação de colapso de traqueia incluem obesidade, inalação de alérgenos ou fumaça / inalação de poluentes, insuficiência cardíaca congestiva, latidos excessivos.

Frequentemente os animais que apresentam colapso de traqueia apresentam outras doenças concomitantemente como paralisia de laringe, palato longo alongado, eversão de sáculos laríngeos, obesidade, doença dentária e endocardiose.

Os pacientes com colapso traqueal apresentam maior risco de infecção das vias aéreas devido à inflamação da mucosa e à disfunção do aparelho mucociliar.

Maior ocorrência

Ocorre com maior frequência em cães de pequeno porte, principalmente miniatura.

As raças com maior ocorrência são: Chihuahua, Poodle toy e miniatura, Lhasa apso, Shih tzu, Pomeranian, Yorkshire terrier.

Não apresenta predileção por gênero. 

Pode ocorrer em qualquer idade, mas geralmente observa-se em cães adultos e idosos. 

Achados de anamnese

Geralmente cães com colapso de traqueia apresentam história de tosse não produtiva, crônica e intermitente que pode soar como o “grasnar de ganso”.  A tosse pode ser exacerbada com excitação, pressão no pescoço, excitação e deglutição. 

Alguns cães podem apresentar ânsia de vômito ou regurgitação após a tosse, e os tutores podem confundir com um quadro primário de emese. Em casos mais graves os cães podem apresentar dispneia, intolerância a exercício, síncope, cianose

Manifestações clínicas

Ao exame físico, geralmente observa-se tosse não produtiva provocada por palpação traqueal. 

Em alguns casos pode-se auscultar estridor inspiratório e notar-se dispneia inspiratória em casos de colapso traqueal cervical ou extratorácico e notar-se dispneia expiratória e auscultar um estalo expiratório no final da respiração, em casos de colapso de traqueia intratorácico. 

Concomitantes quadros de obesidade, insuficiência da valva mitral, hiperadrenocorticismo e broncopneumonia podem agravar o quadro. Cerca de  30% dos cães com colapso traqueal também apresentam paralisia de laringe.

Pacientes com dispneia grave apresentam risco de vida e em alguns casos precisam ser estabilizados antes de se obter exames diagnósticos. 

Procedimentos diagnósticos

Traqueoscopia e Broncoscopia: 

Traqueoscopia e broncoscopia,  quando disponíveis são os exames de escolha para o diagnóstico de colapso de traqueia. A traqueobroncoscopia permite a visualização e a graduação do colapso. Facilmente determina-se o grau de flacidez da membrana dorsal traqueal, o formato dos anéis traqueais e grau de achatamento da traqueia e brônquios. 

Sempre que possível devemos colher amostras para citologia e cultura das vias aéreas durante este exame.

 

Radiografia: 

Radiografias nem sempre podem detectar o colapso de traqueia, pois esta condição tem caráter dinâmico e pode não estar ocorrendo no momento da radiografia. Deve-se sempre avaliar imagens durante a inspiração e durante a expiração. 

em alguns casos pode-se observar  a membrana traqueal flácida, mas isto não é patognomônica para o colapso traqueal. Radiografias normais não descartam a condição. Em geral o estudo radiográfico subestima a gravidade do quadro.

Fluoroscopia: 

Fluoroscopia permite estudo dinâmico durante a respiração. A fluoroscopia é mais sensível que radiografias simples para o diagnóstico de colapso traqueal e também pode diagnosticar colapso brônquico.

Ultrassonografia:

Caso endoscopia e fluoroscopia não estejam disponíveis, a ultrassonografia pode auxiliar o diagnóstico de colapso traqueal cervical.

A largura do primeiro anel traqueal (FTRW) e do anel traqueal na entrada torácica (TITRW) são determinadas por ultrassom e quando a razão TITRW  / FTRW > 1,16 na expiração e > 1,12 na inspiração sugerem ocorrência de colapso traqueal.

Diagnósticos diferenciais

Complexo de doença respiratória infecciosa canina (Tosse dos canis), Bronquite crônica, pneumonia, Insuficiência cardíaca congestiva, paralisia de laringe, hipoplasia traqueal, neoplasia traqueal, obstrução traqueal, estenose traqueal.

Terapia inicial

Em alguns casos os pacientes se apresentam em dispneia severa, e necessitam terapia de emergência. Suplementação de oxigênio e manuseio de maneira menos estressante possível. Sedação pode ser benéfica, Butorfanol (0,3 mg / kg)  ou Acepromazina  (0,05 mg / kg IM) podem ser utilizados.  

Em uma crise aguda uma dose anti-inflamatória de corticoide injetável ​​de curta ação também podem ser benéficos para reduzir o edema e a inflamação traqueal.

O manejo clínico é uma primeira escolha pacientes com manifestações clínicas discretas ou para aqueles com <50% de colapso (Grau I ou II). 

O controle de peso para pacientes obesos é imperativa. Recomenda-se  evitar coleiras cervicais nos cães afetados o uso de coleiras peitorais para evitar a pressão na traqueia.

Evite ambientes com irritantes respiratórios, como fumaça de cigarro, perfumes, poeira etc.

As medicações utilizadas incluem  antitussígenos, broncodilatadores, corticosteroides, sedativos e antibióticos (quando infecção estiver associada)  são frequentemente úteis no manejo do colapso traqueal.

Com o intuito de reduzir inflamação e irritação das via aéreas superiores quando os sintomas estão exacerbados, recomenda-se o uso de curtos períodos de Prednisona em doses anti-inflamatórias (0,5-1 mg / kg / dia PO).

No entanto o uso crônico de corticosteroides é contraindicado.

Bombinhas de corticoesteroides inalatórios também podem ser usados, e geralmente estão associados a menos efeitos colaterais que os corticosteroides orais: Propionato de fluticasona  50 µg / sopro em 2 sopros a cada 6-12 h.

Estanozolol que é um esteroide anabolizante tem sido utilizado em humanos com traqueomalácia. Um estudo realizado com 22 cães com colapso de traqueia o uso de estanozolol promoveu melhora significativa quando comparado aos cães que receberam placebo. Observou-se remissão dos sintomas em 57,1% dos 14 cães que receberam estanozolol e 35,8% deles apresentaram sintomas mais brandos e um cão não apresentou qualquer melhora.

A dose relatada de Estanozolol é de 0,15 mg / kg PO  a cada 12 h.

A utilização de broncodilatadores pode auxiliar na redução dos sintomas clínicos do colapso de traqueia intratorácico.

Teofilina de liberação prolongada (10 mg / kg PO  a cada 12 h), Terbutalina (1,25-2,5 mg PO a cada 8-12 h) ou Albuterol (50 µg / kg PO q 8-12 hrs).

Os antitussígenos  ajudam a reduzir a irritação mecânica da tosse da traqueia e da tosse: Butorfanol (0,05-1 mg / kg PO  a cada 6-8 h) ou hidrocodona (0,22 mg / kg PO a cada 8 h) 

Terapia cirúrgica

Correção cirúrgica é considerada nos casos que não respondem ao tratamento clínico, com sinais clínicos graves (Graus III e IV), com redução do lúmen traqueal de ≥ 50%.

As técnicas descritas são: Pregueamento do ligamento traqueal dorsal, Próteses extraluminais ou stents traqueais intraluminais.

A técnica de pregueamento do ligamento traqueal dorsal só deve ser considerada em casos de colapso traqueal extratorácico e que apresentam anéis traqueais íntegros, rígidos e de conformação normal (Grau I e II), em casos mais graves esta técnica provoca severo estreitamento da traqueia. 

Próteses de anéis extraluminais: A traqueia é reforçada suturando vários anéis de polipropileno ao redor da traqueia e mantêm as vias aéreas abertas, aplicando forças na parte externa da traqueia. Embora mais adequado para o colapso traqueal extratorácico, alguns pacientes com colapso traqueal intratorácico proximais  também foram tratados com sucesso.

Em um estudo retrospectivo cerca de 42 % de 73 cães tratados com próteses de anéis extraluminais apresentaram complicações. As possíveis complicações da colocação de stent extraluminal incluem paralisia laríngea, necrose traqueal, pneumonia, descolamento de suturas extraluminais e migração das próteses. 

Os stents traqueais intraluminais são auto-expansíveis e são colocados de maneira menos invasiva,  sob orientação fluoroscópica ou broncoscópica, A inserção do stent também foi descrita para o tratamento de emergência do colapso traqueal.

Complicações da colocação de stent intraluminal incluem migração do stent, colapso da traqueia adjacente ao stent, reação inflamatória e formação de tecido de granulação, obstrução das vias aéreas, perfuração traqueal, pneumomediastino, fratura do stent e infecções. 

Terapia de suporte e manutenção

Deve-se controlar qualquer outra enfermidade respiratória concomitante, alergias, infecções, processos inflamatórios. 

Animais com colapso de traqueia devem ser mantidos em boa condição corporal, evitando obesidade. 

Deve-se evitar coleiras cervicais, latidos contínuos, excesso de calor e excesso de exercício. 

Animais com colapso de traqueia são predispostos a infecções respiratórias e desconforto respiratório agudo.

Prognóstico

As manifestações clínica podem variar no decorrer da vida dos pacientes.  Alguns cães tratados com cirurgia não necessitam de tratamento médico adicional, mas a maioria deles  não apresenta cura por meio de terapia médica, cirurgia ou implante de stent. 

O prognóstico é favorável para os cães que apresentam sinais clínicos leves e melhoram com tratamento medicamentoso, e prognóstico é reservado para aqueles cães com manifestação clínica severa e não responsiva ao tratamento.

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