Clostridiose

Autora: Dra Carolina Santaniello Alfaro

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nomenclatura

Enterite por Clostridium

 

Nome em Inglês

Clostridium enteritis

 

Definição

O gênero Clostridium compreende um grupo de diversas bactérias gram-positivas, sendo elas anaeróbicas e algumas microaerófilas facultativas. Estas bactérias foram esporos que são resistentes ao frio, ao calor, a ausência de água, a diferentes temperaturas e concentrações de sais. Ao longo do trato gastrointestinal os clostrídios formam a classe mais diversa, incluindo espécies com grandes potenciais patogênicos.

Sabe-se que as infecções causadas pro clostrídios são descritas em cães, gatos e seres humanos, relacionando-as a uma infecção oportunista, associada a outras doenças que levam a  imunossupressão ou ainda em pacientes idosos.

As distintas espécies de clostrídios produzem toxinas com propriedades hemolíticas, necrosantes e letais.

Todos os clostrídios produzem esporos, em sua maioria os agentes patogênicos os produzem no organismo do animal, com exceção ao C.perfringens.

Etiologia e Fisiopatogenia

São descritos na literatura cinco grupos de clostrídios, de acordo com as infecções causadas.

 

- Grupo I: Clostridium perfringens, C. septicum, C. Novyi (tipo A), C. bifermentans, C. histolyticum e C. sordellii. Estes foram relatados em gangrena gasosa ou em necrose muscular.

 

- Grupo II: C. tetani, cuja toxina causa o tétano.

 

- Grupo III: C. botulinum, cuja toxina causa o botulismo.

 

- Grupo IV: C. difficile, este é responsável de diarreia aguda e colite pseudomembranosa.

 

- Grupo V: C. perfringens, C. bifermentans e outras espécies associadas em pacientes com abscesso cerebral, abdominal, ou ainda infecções ginecológicas, pneumonia e bacteremias.

 

Algumas espécies podem ser encontradas em mais de um grupo, causando diferentes tipos de doenças.

Os clostrídios  do Grupo IV, são citados como as espécies predominantes em humanos e nos cães.

 

A espécie de C. piliforme foi incluída a pouco tempo no gênero Clostridium então ainda não possui grupo inserido.

 

A seguir serão descritos as espécies de maior relevância do gênero e que causam sintomas entéricos nos animais.

 

Clostridium perfingens

 

Esta bactéria causa diarreia em cães quando há uma grande mudança na microbiota intestinal, levando ao aumento da população de C. perfingens no trato e também de bactérias do gênero Enterococcus. Este agente produz toxinas únicas ou mais das cinco descritas (alfa, beta, épsilon e iota). Cada biotipo pode expressar um subconjunto de toxinas, incluindo enterotoxina por C. perfingens (CPE).

É encontrada no solo, em água, esterco e no intestinos de animais e seres humanos. As toxinas produzidas pelo C. perfingens podem estar sozinhas ou associadas conforme a virulência do agente e seu tipo.

 

Clostridium piliforme

 

Antigamente descrito como Bacillus piliformi, foi incluído posteriormente e taxonomicamente como C. piliforme. A fonte de contaminação é a ingestão de fezes contaminadas por esporos do agente. É descrita em cães com maior frequência mas já foram encontrados esporos em enterocolites em gatos com panleucopenia felina, em filhotes e animais imunocomprometidos.

 

Clostridium difficile

 

O C. difficile pode produzir até cinco toxinas, porém apenas duas são responsáveis pela virulência do agente. São elas a toxina A e toxina B. Quando isolado, este agente esta associado a doenças do trato gastrintestinal. As amostras enterotoxigênicas do tipo A, são as responsáveis pela diarreia no animais. Já a enterotoxina B apresenta pouca atividade mas quando penetra a mucosa lesionada age sinergicamente a toxina A, causando citotoxicidade as células epiteliais.

Maior ocorrência

Não há predileção por sexo, raça ou idade.

Achados de anamnese

Em cães e gatos pode ocorrer sintomas inespecíficos como prostração, perda de peso, tenesmo e diarreia.

Manifestações clínicas

Serão descritas de acordo com cada agente anteriormente citado.

 

Clostridium perfingens: Encontrado em cães com enteropatias nosocomiais. Estão presentes: anorexia, prostração, diarreia líquida ou pastosa, podendo ainda haver presença de sangue ou muco.

 

Clostridium piliforme: Em cães e gatos são descritos sintomas de prostração, perda de peso e diarreia. Em cão ainda observa-se sinais de hipoglicemia severa, leucopenia e hiperbilirrubinemia, levando a morte rápida.

 

Clostridium difficile: Esta espécie pode ser isolada de cães e gatos clinicamente saudáveis e também com diarreia. Pode não haver diferenças significativas entre os animais isolados com e sem a bactéria no intestino e em ambos os casos já foi descrito a ocorrência deste agente em amostras toxigênicas e não toxigênicas. Estudos  sugerem que o C. difficile possa ser parte da microbiota normal de cães.

Procedimentos Diagnósticos

Correlacionar os achados clínicos e de anamnese, levando em conta que alguns animais podem não apresentar sintomas.

Encaminhar o conteúdo intestinal para o laboratório sob refrigeração em até no máximo 4 horas para manter viáveis as toxinas presentes.

O cultivo microbiológico é feito em meio seletivo e incubados em condições de anaerobiose (90%, N2 e CO2), a 37°C, por 4 dias. As colônias são testadas sob a luz ultravioleta e as que apresentam coloração amarelo-fluorescente  são levadas a subcultivo em ágar-sangue e após crescimento são realizados teste bioquímicos para definitiva identificação. Este não é um teste seletivo para todas as espécies.

É possível identificar os clostrídios por técnica de imunoflorescência direta ou em exame imuno-histoquímico, através do uso de anticorpos específicos para cada espécie.

A respeito do C. difficile, estão disponíveis em humanos testes imunoenzimáticos (ELISA), para o diagnóstico deste agente, porém estudos revelam que este não traz resultados satisfatórios quando utilizado para detecção de toxinas em fezes de cães acometidos. Sugerindo assim testes falso negativos. Uma opção em medicina veterinária seria o PCR onde detecta-se as toxinas A e/ou B, contudo este é um teste ainda usado apenas em pesquisa.

Para o C. piliforme, podem ser realizados testes sorológicos, pois esta cepa não pode ser cultivada em laboratório. Também é possível realizar PCR.

Deve-se levar em conta os diagnósticos diferenciais, como: a parvovirose, salmonelose, infecções por E. coli, Neorickettsia helminthoeca, C. perfingens e protozoários que podem levar a enterites hemorrágicas. Havendo sintomas e achados de lesão hepática associados também deve-se excluir a leptospirose, hepatite infecciosa canina e herpes-vírus canino.

Diagnóstico diferencial

  • Parvovirose
  • Infecções por E. coli
  • Neorickettsia helminthoeca
  • Coccidiose
  • Criptococose
  • Giardíase
  • Coronavírus entérico
  • Parvovirose
  • Helicobacteriose
  • Histoplasmose
  • Salmonelose
  • Mudança na dieta
  • Yersiniose
  • Outras causas de enterite e colite.
  • Lepstospirose
  • Hepatite infecciosa canina
  • Herpes-vírus canino.

Tratamento Inicial

Os clostrídios costumam a ser sensíveis aos antibióticos como os carbapenêmicos, metronidazol, cloranfenicol, eritromicina, tilosina, e ainda associações de penicilinas a β-lactâmicos. Alguns isolados podem apresentam resistência a determinados fármacos.

Estudos mostram que pró-biotico Bifidobacterium animalis em cães levou a redução total dos níveis de C. Difficile em animais anteriormente infectados.

A respeito, do C. piliforme, há pouco conhecimento sobre a eficácia de antibióticos para o tratamento, e do uso poder contribuir para o agravamento da doença. Sendo ela por vezes sensível à tetraciclina e parcialmente sensível à estreptomicina, penicilina e clortetraciclina. Apresenta resistência ao cloranfenicol e a sulfonamidas. É indicado a associação de tratamento intravenoso com 50% de dextrose ao protocolo.

Terapia de suporte e manutenção

Além de terapia antimicrobiana para indivíduos que apresentem sintomas de clostridiose,  é interessante realizar fluidoterapia para a correção de possíveis distúrbios eletrolíticos e desidratação. E ainda, o uso de medicamentos que provocam conforto do paciente como a  administração de analgésicos e anti-inflamatórios.

Prevenção

É interessante evitar a troca de dietas de forma abrupta, isso deve ocorrer de forma gradativa, evitando assim ocorrência de diarreia devido a mudança no pH intestinal, o que pode levar ao desequilíbrio e favorecimento de infecções oportunistas por clostrídios. Limitar o uso de antibióticos sem a devida indicação para não alterar a microbiota estável do trato gastrintestinal. Sempre manter padrões de higiene ambiental e em  comedouros e bebedouros. Não se deve alimentar os animais com restos de comida e carnes cruas em mal estado de conservação.

É importante ressaltar que os animais infectados devem ser isolados. A manipulação das fezes deve ser feita com luvas.

Em território nacional, até o ano de 2000, foram produzidas cerca de 130 milhões de vacinas contra  a clostridiose. Sendo destas 78 milhões polivalentes, que traziam combinações entre C.septicum, C.nonovyi, C.perfringens B, C e D, C.bolutinum C e D e C.tetani. Não se sabe ao certo a eficácia sobre o uso destas vacinas,  uma vez que alguns animais foram diagnosticados mesmo após o uso da mesma. Deve-se levar em conta então a identificação do agente etiológico e e o tipo de vacina utilizada na profilaxia.

Prognóstico

O prognóstico é reservado, uma vez que as toxinas produzidas pelo agente podem trazer danos graves ao animal. O uso de antibióticos e terapia de suporte é essencial para evolução do quadro clínico e diminuição dos sintomas observados.

Literatura recomendada

MEGID, Jane. Clostridioses. In: MEGID, Jane et alDoenças Infecciosas em Animais de Produção e de Companhia. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. cap. 14, p. 144-154. ISBN 978-85-277-2789-1.

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