Citauxzoonose

Dra Cristiene Rosa

Ultima atualização: 29 FEV DE 2020

Nomenclatura

Reino: Protista

Subreino: Protozoa

Filo: Apicomplexa

Classe: Sporozoasida

Ordem: Piroplasmorida

Família: Theileriidae

Gênero: Cytauxzoon

Nome em inglês

Cytauxzoonosis

Definição

Doença infecciosa causada pelo protozoário Cytauxzoon sp, que acomete felinos domésticos e selvagens, transmitida pela picada de carrapatos infectados.

A doença tende a ser fatal em gatos domésticos, com morte entre 9 a 15 dias pós infecção, com curso de doença curto.

Relatado no Brasil em leão e gato doméstico.

Fisiopatologia

A infecção ocorre durante a hematofagia do carrapato, ocasião em que o agente é inoculado, invadindo fagócitos mononucleares associados ao endotélio.

Estes macrófagos, repletos de formas do parasita, tornam-se grandes e numerosos, ocluindo pequenos vasos, como um trombo, em vários órgãos, especialmente em pulmão, fígado, rins e baço.

A obstrução é um dos principais mecanismos que levam a alterações patológicas, com comprometimento circulatório, anemia hemolítica e disfunção multiorgânica.

Outra alteração importante é a coagulação intravascular disseminada (CID) provavelmente ativada pela ruptura do endotélio vascular. 

O protozoário invade os eritrócitos e produz parasitemia.

No geral as manifestações clínicas ocorrem antes do aparecimento do agente no sangue.

Os gatos que se recuperam da fase aguda podem manter o hemoparasita no interior de eritrócitos por anos, sem apresentarem sinais clínicos.

Etiologia

A doença é causada pela espécie Cytauxzoon felis.

Trata-se de um protozoário pleomófico, parasita de células mononucleares e eritrócitos.

A transmissão natural do agente, requer a participação de carrapatos.

No Brasil já foi citada a competência vetorial da espécie Amblyomma cajennense.

Outra forma de transmissão seria por transfusão de sangue, principalmente se o doador estiver na fase aguda da doença.

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

Não há predisposição de idade, sexo ou raça. 

Animais que tem acesso a rua, possuem maior risco de infecção, principalmente em épocas mais propícias para o desenvolvimento do vetor.

Não há risco iminente entre gatos infectados e sadios que dividem o mesmo ambiente, desde que não haja a presença do vetor.

Na América do Norte o reservatório natural é o lince-parda (Lynx rufus).

Achados de anamnese

O histórico e o exame físico, normalmente, não acrescentam informações específicas.

A suspeita deve ser levantada quando o animal, proveniente de uma área endêmica ou de um local com casos da doença, apresentar início agudo, com anorexia, letargia e febre.

Manifestações clínicas

Em gatos domésticos (Felis catus) a doença tem curso curto, com morte entre 5 a 15 dias pós infecção.

Normalmente estes animais apresentam febre, anorexia, desidratação, depressão, icterícia e letargia, dispneia, vômito, taquicardia, hepatoesplenomegalia, dor generalizada e vocalização.

Ainda podem ser notados alteração no comportamento, devido a confusão mental e até mesmo convulsões.

Nos estágios terminais da doença, gatos domésticos apresentam decúbito, hipotermia, além da vocalização.

Procedimentos diagnósticos

Alterações hematológicas: (sangue com EDTA)

Anemia arregenerativa, trombocitopenia, leucopenia e linfopenia, pode ocorrer pancitopenia.

Visualização do parasita em eritrócitos na fase aguda em 50% dos casos. É possível confundir piroplasmas de C. felis com Mycoplasma haemofelis.

Bioquímico: (soro ou plasma de acordo com o bioquímico pesquisado)

Hiperproteinemia, hiperglobulinemia, tempo prolongado de protrombina, hiperglicemia, hiperbilirrubinemia, hipoalbuminemia, hipocalcemia, níveis moderadamente aumentados de alanina transaminase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST) e azotemia pré-renal.

Citologia: (aspirado de tecido com agulha fina - baço, fígado, linfonodos ou pulmões)

Pode ser visualizado aumento de macrófagos cheios de esquizontes.

A sensibilidade deste diagnóstico é maior que a visualização de piroplasmas em esfregaços de sangue, porém deve-se considerar o risco durante a colheita das amostras.

Anticorpos específicos: (soro)

Devido à dificuldade de se produzir antígenos purificados não estão disponíveis testes comerciais para o diagnóstico da citauxzoonose.

A pesquisa de anticorpos também é um recurso limitado pelo curso agudo da doença, os animais infectados não tem tempo hábil de produzir anticorpos detectáveis na maioria dos casos.

Biologia molecular: (sangue total em EDTA; aspirados de tecidos ou material de necrópsia de baço, pulmão, fígado e/ou linfonodos)

A PCR normalmente é 1.000 vezes mais sensível que a pesquisa do piroplasma em lâmina.

A desvantagem do método é não diferenciar animais na fase aguda, daqueles que permanecem com a doença crônica.

Diagnósticos diferenciais

Hemobartonelose, babesiose felina (baixa prevalência no Brasil).

Em esfregaços sanguíneos, ou citologia e histopatológicos de diferentes tecidos, as formas do parasita podem ser semelhantes a Mycoplasma sp, esquizontes de Hepatozoon spp, Pseudocistos de Toxoplasma gondii, formas amastigotas de Trypanosoma cruzi.

Terapia inicial

Um tratamento efetivo para citauxzoonose ainda não foi estabelecido.

A associação de azitromicina (10 mg/kg/ via oral, a cada 24 horas) com atovaquona (15 mg/kg/ via oral, a cada 8 horas) tem se mostrado a melhor terapêutica na fase aguda da doença, porém o atovaquona não está sempre disponível, pois é caro e de difícil acesso, restando ao clínico, o tratamento somente com a azitromicina.

O aceturato de diminazeno (2 mg/kg/ via intramuscular) pode ser utilizado, tendo sucesso em parte dos casos. Eventualmente pode-se adotar a dose de 4 mg/kg/ via intramuscular.

Outra alternativa é o uso de Dipropionato de imidocarbe (2 a 3,5 mg/kg/intramuscular, duas doses com intervalo de 7 dias; 5mg/kg/intramuscular, duas doses com intervalo de 4 dias), que mostrou resultados controversos na literatura.

Associar a atropina (0,04mg/kg/subcutâneo, 15 minutos antes da aplicação do imidocarbe)

Terapia de suporte e manutenção

Fluidoterapia: Ringer lactato

Suplementação de oxigênio

Suplementação de plasma

Terapia antiemética: citrato de maropitant (1mg/kg/via subcutânea ou oral, a cada 24 horas); 

Terapia analgésica: meloxicam (0,1 mg/kg/ via, oral, intravenosa, subcutânea, a cada 24 horas, por no máximo 4 dias); buprenorfina (0,01 mg/kg/ via intravenosa ou oral, a cada 8 horas) 

Terapia antitrombótica: heparina, não fracionada, (100 a 200 U/kg/ via subcutânea, a cada 8 horas) para prevenir a CID

As terapias de suporte devem ser utilizadas de acordo com as manifestações do animal.

Prognóstico

Desfavorável.

A citauxzoonose já foi considerada fatal para gatos domésticos.

Hoje, com mais fármacos à disposição, há casos de recuperação, mesmo assim a maioria destes gatos morrem em uma semana após o aparecimento dos sinais clínicos.

Para os reservatórios silvestres, a maioria tende a sobreviver a este estágio.

Literatura recomendada

AMARAL, A.S. Caracterizações morfológica, morfométrica e ultraestrutural de formas intraeritrocíticas de Cytauxzoon felis símile. 77. f. Tese (Doutorado). Parasitologia veterinária. Universidade Federal Rural do Rio De Janeiro, Seropédica, RJ, 2002.

 

FENG-CAI ZOU; ZHAO LI; JIAN-FA YANG; JIANG-YAN CHANG; GUO-HUA LIU; YAN LV; XING-QUAN ZHU. Cytauxzoon felis Infection in Domestic Cats, Yunnan Province, China, 2016. Emerging Infectious Diseases • www.cdc.gov/eid v. 25, No. 2. 2019. DOI: https://doi.org/10.3201/eid2502.181182

 

GREENE, C.E. Doenças Infecciosas de Cães e Gatos. 4ª ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2015. 1354p.

 

MAIA, L.M.P.; CERQUEIRA, A.M.F.; MACIEIRA, D.B.; SOUZA, A.M.; MOREIRA, N.S.; SILVA, A.V.; MESSICK, J.B.; FERREIRA, R.F.; ALMOSNY, N.R.P. Cytauxzoon felis and ‘Candidatus Mycoplasma haemominutum’ coinfection in a Brazilian domestic cat (Felis catus). Rev. Bras. Parasitol. Vet., v. 22, n. 2, p. 289-291. 2013

 

PEIXOTO,P.V.; SOARES,C.O.; SCOFILD,A.; SANTIAGO, C.D.; FRANÇA¸T.N.; BARROS, S.S. Fatal cytauxzoonosis in captive-reared lions in Brazil. Veterinary Parasitology, v. 145, p. 383–387. 2007.

 

WANG J-L, LI T-T, LIU G-H, ZHU X-Q, YAO C. Two tales of Cytauxzoon felis infections in domestic cats. Clinical Microbiology Reviews, v. 30, N. 4, p.861–885. 2017.. https://doi.org/10.1128/CMR.00010-17

Informação ao Tutor

Nenhum anexo disponível

O conteúdo deste site é para uso exclusivo e restrito dos associados. Apenas Médicos Veterinários graduados e estudantes de Medicina Veterinária são autorizados a acessar este site.

Não está permitida a divulgação de qualquer conteúdo sem a prévia autorização do Vetsapiens, por escrito. Os Médicos Veterinários são os únicos responsáveis pelo tratamento e cuidado de seus pacientes.

Quaisquer recomendações de colegas ou especialistas recebidas através deste site são meras opiniões individuais, e cada clínico é o exclusivo responsável pelo manejo de seus pacientes. Os fármacos e doses recomendadas ou calculadas no Vetsapiens devem ser sempre conferidos antes de sua aplicação.

Veterinários não devem utilizar medicações e ou protocolos com os quais não estejam familiarizados e confortáveis. O Vetsapiens preconiza que o encaminhamento para especialistas seja sempre a primeira recomendação dos clínicos gerais ao se depararem com casos clínicos além do seu conhecimento.

As imagens e informações trocadas neste site não substituem o exame físico do paciente, e a relação exclusiva entre veterinário-paciente-cliente. As imagens aqui postadas não podem ser consideradas de qualidade diagnóstica.

Toda e qualquer informação obtida neste site deve ser considerada apenas como uma sugestão individual e não tem qualquer valor diagnóstico.

Desenvolvido por logo-crowd