Ceratite Eosinofílica Felina

Dra Flavia Rodrigues Souza Paes

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Ceratoconjuntivite eosinofílica

Ceratite proliferativa felina

Nome em inglês

Eosinophilic Keratitis in cats

Definição

É uma inflamação da córnea e conjuntiva imunemediada caracterizada pela vascularização perilimbal, infiltrado branco rosado e edema.

 

Fisiopatologia

A doença inicia com pequenas lesões e edema em córnea que com o tempo tornam-se placas brancas e róseas e podem levar a formação de úlceras corneanas.

Etiologia

Acredita-se que o herpes vírus felino (HVF-1) esteja associado a sua ocorrência mas o mecanismo ainda não é bem elucidado.

As teorias propostas para sua ocorrência são: 1) hipersensibilidade do tipo I com degranulação de mastócitos e eosinófilos mediada por IgE; 2) reação do tipo IV em que linfócitos T sensibilizados via IL-5 estimulam dano a córnea mediados por eosinófilos locais.

Maior ocorrência

Os gatos castrados jovens e de meia-idade são os mais acometidos.

Acredita-se que não exista predisposição racial.

Geralmente afeta os gatos de pelo curto, mas há relatos de ceratite eosinofílica em gatos das raças persa, siamês e himalaio.

Anamnese

Deve-se questionar quanto às lesões oculares existentes, tempo de evolução, sensibilidade ocular.

Avaliar a possibilidade de ter tido contato com herpesvírus felino (HVF-1) e possíveis quadros de complexo respiratório felino.

Manifestações clínicas

A ceratite eosinofílica comumente apresenta-se unilateral, embora possa ocorrer em ambos os olhos.

A lesão típica dessa ceratopatia é uma massa proliferativa, ou grânulos, de coloração esbranquiçada à rosada, afetando porções variáveis da córnea, podendo se originar do limbo, córnea periférica ou conjuntiva bulbar.

As lesões ou placas têm consistência de depósitos arenosos e podem ser removidos por raspagem.

A localização mais comum da lesão inicial é na região superior temporal da córnea, seguida por lesões na porção ventro-nasal, que podem evoluir para múltiplos quadrantes da córnea. 

A córnea pode apresentar edema estromal, vascularização e úlceras superficiais.

Blefarospasmo, secreção serosa a mucoide, quemose e protrusão da terceira pálpebra também podem ocorrer.

Em recente estudo envolvendo 35 felinos, a vascularização corneal estava presente em todos os casos, a presença de placas esbranquiçadas em 50% dos casos e 28.6% dos pacientes apresentavam úlcera de córnea. 

Procedimentos diagnósticos

O exame citológico da córnea fornece o diagnóstico definitivo da doença.

Para realizar esse exame deve-se instilar colírio anestésico e após 30 segundos, usando o verso de uma lâmina de bisturi, deve-se fazer a raspagem superficial da córnea, que deve ser realizada na área afetada e nas placas esbranquiçadas. 

A citologia do raspado corneano de felinos acometidos pela ceratite eosinofílica comumente revela eosinófilos e grânulos eosinofílicos, não encontrados na córnea de animais hígidos

O teste de fluoresceína deve ser realizado em todos os pacientes com ceratite eosinofílica para diagnosticar as úlceras de córnea associadas.

Diagnósticos diferencias

O diagnóstico diferencial para ceratite eosinofílica inclui ceratite herpética, ceratomicose, granuloma por micobactéria, neoplasia de córnea e granulomas corneanos.

Terapia inicial

  • Corticóides tópicos: colírios de acetato de prednisolona 1% ou fosfato sódico de dexametasosna a 0,1% a cada 6 a 12 horas por 5-7 dias e depois deve ser realizada a redução gradual para a frequência mais baixa que seja eficaz. Essa terapia não deve ser utilizada em gatos com úlcera de córnea.
  • Terapia antiviral tópica ou oral: fanciclovir oral na dose de 90mg/kg via oral a cada 12 horas ou iduxuridina 0,1 ou 0,5% colírio ou gel aplicado 5-6 vezes ao dia.
  • Corticoides subconjuntivais-triancinolona 0,1-0,2% a cada 3 a 5 dias, utilizar apenas em gatos que não permitem o tratamento tópico
  • Acetato de megestrol: utilizado apenas em casos refratários 2,5 mg oral a cada 24 horas por 3-5 dias e, depois, 2,5mg oral a cada 48 horas por 3-5 dias com redução gradativa da frequência até chegar na menor dose efetiva.
  • Ciclosporina 0,2% tópica: pode ser utilizada a cada 8 ou 12 horas, com subsequente redução gradual da dose até a menor dose efetiva. Pode ser utilizada em gatos diabéticos em que o megestrol e os corticosteroides são contra-indicados. Pode ser irritante para alguns gatos.
  • Prednisolona sistêmica: iniciar o tratamento com dose imunossupressora de 2,2 mg / kg a cada 12 horas e reduzir gradativamente até a menor dose efetiva. Utilizar somente nos casos em que o gato não aceitar outro tipo de terapia

 

Terapia de manutenção

Muitos gatos vão necessitar de terapia prolongada para controle da doença e as recorrências são comuns, tanto a longo quanto a curto prazo.

Prognóstico

A melhora com o tratamento geralmente é rápida e o prognóstico é bom.

Em alguns casos a terapia não poderá ser interrompida nunca.

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