Cardiomiopatia hipertrófica, HCM

Dr Cesar Martins de Souza

Ultima atualização: 31 AGO DE 2020

Nomenclatura (sinônimos)

Cardiomiopatia hipertrófica, HCM

Nome em inglês

Feline Hypertrophic cardiomyopathy

Definição

É uma doença miocárdica primária caracterizada por hipertrofia (sem dilatação) ventricular esquerda na ausência de qualquer outra causa de hipertrofia ventricular como hipertensão arterial sistêmica, hipertireoidismo ou doença renal crônica. 

Fisiopatologia

A cardiomiopatia hipertrófica é caracterizada por uma hipertrofia excessiva, local ou generalizada do ventrículo esquerdo.

O aumento da espessura da parede ventricular não é acompanhado de dilatação, sendo assim, a luz ventricular fica muito diminuída.

Com isso, a capacidade volumétrica do ventrículo esquerdo reduz e o sangue começa a acumular-se no átrio esquerdo pela disfunção diastólica resultando em aumento da pressão e subsequente dilatação atrial.

Como o enchimento do ventrículo esquerdo diminui, o débito cardíaco cai, causando ativação dos sistemas compensatórios e insuficiência cardíaca que pode evoluir para congestão (gatos podem apresentar efusão pleural além do edema pulmonar).

Como a doença cardíaca é resultado de uma disfunção diastólica e, muitas vezes não gera refluxo sanguíneo, o sangue acumulado no átrio movimenta-se muito pouco (estase sanguínea) e há uma predisposição para formação de trombo intracardíaco.  

Além disso, a hipertrofia excessiva pode atrapalhar a função cardíaca de outra maneira.

O “excesso de músculo cardíaco” pode acabar se projetando em direção a via de saída (aorta) causando uma obstrução a cada contração.

Etiologia

A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética que também acomete humanos.

Em humanos sabe-se de mais de 1500 mutações associadas a enfermidade.

Tal heterogeneidade provavelmente está presente nos felinos.

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

A HCM é muito mais comum nos gatos, embora haja relatos da presença da doença em cães também.

Alguns trabalhos relatam prevalência em 10 -15% de todos os gatos domésticos, porém esses números podem ser bem mais altos se avaliarmos uma população de raças predispostas como Maine Coons e Persas, por exemplo.

É mais comum e grave nos machos. 

Achados de anamnese

Gatos normalmente demoram muito a manifestar alterações clínicas.

Quando o tutor percebe alguma alteração o paciente já esta em uma fase avançada da doença cardíaca.

Normalmente quando o tutor procura ajuda o paciente já esta bastante dispneico, magro, com síncopes, hiporéxico ou com dor e perda de função aguda em membros pélvicos (tromboembolismo arterial).

Ao contrário dos cães, gatos raramente tossem por doenças cardíacas. 

Manifestações clínicas

Dispneia, cianose, sincope, cansaço fácil. Ao exame físico o paciente pode ou não apresentar sopro cardíaco na auscultação.

Muitos apresentam a terceira bulha cardíaca (ritmo de galope).

Alguns gatos podem ser admitidos com hipofonese cardíaca e som submaciço à percussão torácica (efusão pleural) ou membros gelados, cianóticos e ausência de pulso (tromboembolismo arterial) . 

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico definitivo de HCM requer diversos exames.

Mesmo com hipertrofia ventricular detectada ao exame ecodopplercardiográfico, é necessário realizar exames de sangue para descartar outras causas de hipertrofia ventricular como doença renal crônica, hipertireoidismo, etc. 

O ECO é muito importante na HCM porque consegue indicar se o paciente também apresenta risco de congestão, formação de trombo, etc

Radiografias torácicas, também podem indicar cardiomegalia, porém como em estágios mais iniciais da cardiopatia, o coração não dilata importantemente, pode ser que que o exame não consiga detectar. 

Hoje também podem ser realizados os marcadores cardíacos (especialmente o peptídeo natriurético - NT-proBNP). O NT-probnp aumenta com o estiramento ventricular.

Esses exames em felinos com HCM podem apresentar diversos falsos positivos, porém poucos falsos negativos, então talvez seu melhor uso seja pra descartar doença cardíaca quando o valor estiver normal. 

Diagnósticos diferenciais

Doença renal crônica, hipertireoidismo, pneumonia, asma felina, hipertrofia transitória do ventrículo esquerdo.

Terapia inicial

Essa talvez seja uma das doenças mais frustrantes para o veterinário. Por mais óbvio que seja o diagnóstico, nenhum tratamento conseguiu se mostrar eficiente em pacientes subclínicos. 

É preciso manter em mente, que tratar gatos por via oral cronicamente nem sempre é uma tarefa fácil de ser realizada, então deve-se pesar a quantidade de medicamentos a serem prescritos. 

Pacientes podem apresentar basicamente duas formas distintas: insuficiência cardíaca congestiva ou tromboembolismo arterial que podem até mesmo aparecer simultaneamente. 

Gatos em quadro congestivo precisam receber furosemida, de preferência por via endovenosa na dose de 0,5 – 2 mg/kg.

Gatos são mais sensíveis a hipocalemia, então é necessário realizar diuréticos com cuidado.

Para gatos com trombo, o ideal seria 1 – induzir um estado de hipocoagulabilidade, 2- melhorar a perfusão tecidual, 3- controle de dor, 4 – tratar congestão e 5- promover suporte a vida.

Heparina (não fracionada) na dose de 250 a 375 UI/kg IV seguida de 150 a 250 UI/KG, a cada 6 ou 8 horas, pode ajudar no estado de hipocoagulabilidade.

Cirurgias para remoção do trombo são arriscadas, caras e ,muitas vezes inviáveis pelo tamanho dos vasos afetados, além disso o trombo primário gera micro trombos na circulação colateral que também possuem muita importância.

O uso de trombolíticos como estreptoquinase ou ativador de plasminogênio tecidual são muito caros e requerem monitoração avançado devido aos riscos de sangramento e efeitos deletérios da reperfusão repentina.

Clopidogrel em dose única de 75 mg possui efeito benéfico em estudos experimentais

 

Terapia de suporte e manutenção

Para terapia de manutenção é recomendado manter furosemida na dose de 1- 2 mg/kg a cada 24 ou 12 horas. 

Clopidogrel na dose de 18,75 / animal a cada 24 horas associada ou não a aspirina na dose de 25 mg/kg a cada 48 ou 72 horas. 

Pimobendam na dose de 0,3 mg/kg a cada 12 horas pode ser administrado embora seu uso seja bastante controverso.

Prognóstico

Para gatos com manifestações clínicas, o prognóstico em geral é mau com risco de recidiva do quadro trombótico mesmo após tratamento.

Literatura recomendada

Feline Cardiogenic Arterial Thromboembolism Prevention And Therapy Daniel F. Hogan, DVM 2017

Feline Hypertrophic Cardiomyopathy: An Update Catherine J. Baty, DVM, Phd, 2004

J Am Vet Med Assoc. 2014 Sep 1;245(5):534-9. Doi: 10.2460/Javma.245.5.534.

Case-Control Study Of The Effects Of Pimobendan On Survival Time In Cats With Hypertrophic Cardiomyopathy And Congestive Heart Failure.

Cardiol Res. 2017 Aug; 8(4): 139–142.

Feline Hypertrophic Cardiomyopathy: A Spontaneous Large Animal Model Of Human HCM

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