Carcinoma de Células Escamosas Cutâneas

Dra Samanta Rios Melo

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nome em inglês

Squamous Cell Carcinoma

Nomenclatura / sinônimos

  • Carcinoma Cutâneo
  • Carcinoma Solar 

Definição

Carcinoma de células escamosas (CCE) é um tipo de neoplasia maligna comum em gatos e composto de queratinócitos neoplásicos. O epitélio escamoso forma a maior parte da pele, está alinhado a cavidade oral e o esôfago e forma os leitos ungueais e os coxins. O comportamento e causa desta neoplasia varia de acordo com o local onde ele ocorre, e este artigo está relacionado ao CCE na forma cutânea.

Fisiopatologia

O CCE é responsável por 15% dos tumores de pele felina e a grande maioria dos tumores malignos orais felinos.

Como na maioria dos casos de câncer, esta é uma doença de gatos idosos, com a idade mediana afetada entre 10 e 12 anos.

Por ter relação com a exposiçao solar é bem frequente em gatos brancos ou coloridos com áreas brancas.

Os gatos que têm acesso a rua são mais predispostos a esses tumores, especialmente em regiões anatômicas expostas ao sol, como o plano nasal, pálpebras, orelhas, face / cabeça e pescoço.

Etiologia

A causa da maioria dos CCE cutâneos é a exposição crônica a radiação ultravioleta (Luz UV).

Especificamente, acredita-se que esteja relacionado à exposição a radiaçao UVB. Tumores dessa etiologia são vistos quase exclusivamente na cabeça.

Isso porque a pele e sua pigmentação, são uma barreira física à radiação UV, de modo que esses cacinomas surjam em áreas glabras e não pigmentadas, como o orelhas, pálpebras, plano nasal e áreas temporais. 

Nos seres humanos, tem sido sugerido que a luz UV e papiloma virus podem agir em conjunto para causar CCE cutâneo, mas a evidência é ainda contraditória.

Alguns estudos estenderam essa teoria ao CCE felino induzido pela energia solar, mas ainda não há dados contundentes dessa associação em felinos. 

 

Espécies, raças, sexo, e idade de maior prevalência

Gatos de qualquer raça e sexo podem ser afetados, mas raças de pelos longos são mais protegidas pela melhor cobertura capilar; e raças como os siameses e persas são naturalmente protegidos pela disposição das suas manchas escuras.

Achados de anamnese

A maioria dos gatos com CCE induzido por energia solar apresenta-se com lesões notadas por seus tutores.

As lesões freqüentemente aparecem como manchas avermelhadas, que não cicatrizam, ou como úlceras escamosas.

Frequentemente o tutor  percebe uma lesão no plano nasal do animal como um arranhão de gato que não cura. Ainda, pode-se receber o animal em estágios mais avançados, onde as lesões já são maiores e abundantemente hemorrágicas. 

Sinais clínicos

O CCE cutâneo geralmente aparece como uma lesão do tipo placa, focal, proliferativa, ulcerada, eritematosa, com crosta ou escamosa, hemorrágicas ou não.

Surge mais frequentemente em áreas de pele com pêlos escassos e levemente pigmentados. 

As lesões podem estar presentes em ponta de orelha, plano nasal e pálpebras de maneira isolada ou concomitante.

Podem também haver áreas onde se nota lesões apenas relacionadas a dermatite actínica (pele espessa, avermelhada e ondulada), mas stas lesões podem progredir para o CCE por meio do carcinoma in situ, caso não sejam poupadas de sol. 

Diagnóstico

Histopatologia: O diagnóstico é melhor obtido por meio de biópsia; seja biópsia excisional ou incisional por meio de punch.

A maior parte das lesões é muito superficial ou inflamada para permitir um diagnóstico através de aspiração por agulha fina (citologia).

Em geral pode-se observar diversas áreas dee pele anormais ou suspeitas, e portanto, de maneira ideal, essas várias áreas devem ser amostradas.

Algumas podem evidenciar apenas displasias celulares enquanto outras podem confirmar o CCE. As lesões mais agressivas devem ser corretamente identificadas. 

Radiografias: Radiografias torácicas em 3 projeções são importantes no estadiamento e busca de metástase pulmonar; que embora seja de ocorrência mais rara nesse tipo de neoplasia, não pode ser negligenciada. 

Avaliação de linfonodos regionais: citologia por agulha fina ou histopatologia de linfonodos regionais podem ser usadas para rastrear metástases em linfonodos aumentados ou suspeitos. 

Ultrassom abdominal: O ultrassom abdominal pode ser usado para rastrear metástases, especialmente para tumores primários que surgem na metade caudal do corpo.

Prognóstico

Os CCE cutâneos felinos são relativamente lentos para progressão de metástase. Quando ocorre em geral são para linfonodos regionais e pulmão. 
Gatos com lesões em pavilhão auricular podem ter maior sobrevida do que os animais que apresentam lesões em plano nasal, mas em geral, se um gato é um candidato para a cirurgia excisão e margens livres são obtidas, muitas vezes a doença pode ser curada.

Ainda assim, sempre recomenda-se um monitoramento rigoroso da recorrência local ou regional e metástases tardias à distância. 

Diagnósticos diferenciais

Incluem outras neoplasias ou dermatites cutâneas, Carcinoma Bowenóide (manifestação do CCE não relcionado a exposição solar), tumor de células basais, Linfoma epiteliotrópico, dermatite actínica (induzida por luz solar). 

Tratamento

As opções de tratamento variam de acordo com o estadiamento, grau de invasividade no momento da apresentação, e ainda com as expectativas e possibilidades do tutor. 

Cirurgia

A excisão cirúrgica é a maneira mais bem-sucedida de tratamento de lesões das orelhas, pálpebras e pele da face; bem como é a melhor medida de tratamento para casos mais invasivos de plano nasal.

A principal limitação da cirurgia é o resultado cosmético. Em geral é mais fácil a aceitação da remoção da ponta das orelhas do que do plano nasal, por razões cosméticas; muito embora a qualidade de vida do animal seja muito melhor independente da extensão cirúrgica.

Para excisão completa dos CCE em geral uma margem de 1cm é suficiente (4 a 5 mm para pálpebra).Em dois estudos, gatos com margens cirúrgicas livres após remoção do CCE não apresentaram remissão ou recidiva por 12 meses. 

Criocirurgia: A criocirurgia é uma opção para tratamento de tumores superficial de baixo estadiamento (não invasivos, pequenos e sem metástases regionais ou sistêmicas).

A principal limitação da criocirurgia é que as margens não podem ser avaliadas, a recorrência é um problema comum (em geral de 6 a 8 meses). 

Radioterapia: Lesões solitárias ou superificias podem ser tratadas com um protocolo de radioterapia hipo ou hiperfracionada, a critério do medico veterinário radiologista especializado em oncologia.

Imiquimode 50mg/g Creme (Ixium): Este agente é um modificador de resposta imune licenciado para tratar queratose actínica, carcinoma basocelular superficial e papilomas virais em humanos.

O imiquimode aumenta a imunidade inata e mediada por células através da indução de citocinas. 

O creme é aplicado (após tricotomia) em uma película fina sobre as lesões a cada 24-72 horas. 

O tratamento é continuado até a resolução ou estabilização da lesão. 

Como uma alta taxa de resposta (incluindo múltiplas respostas completas) foi relatada para gatos com carcinoma de Bowenóide, esse medicamento poderia ser empregado para lesões superficiais e / ou como uma opção paliativa para CEC invasivos. 

Os efeitos colaterais relatados em gatos incluem eritema localizado, anorexia e aumento das enzimas hepáticas, que se acredita resultar da ingestão (via lambida) do creme.

Terapia fotodinâmica: Outra opção para lesões de CCE superficiais é terapia fotodinâmica (TFD). 

Com esta técnica, um fotossensibilizador é administrado e absorvido preferencialmente pelas células tumorais. 

Foi relatada uma alta taxa de resposta para CCE de felinos com lesões superficiais tratados com TFD, mas nem sempre as respostas são duradouras. 

Os tratamentos requerem sedação intensa ou anestesia geral. A terapia requer equipamentos especializados e agentes terapêuticos, portanto essa modalidade está menos disponível do que algumas outras terapias.

Quimioterapia: Existem poucos dados para apoiar o uso de drogas citotóxicas no tratamento dessas lesões doenças cutâneas. 

Aplicações intralesionais de carboplatina e endovenosas de mitoxantrona ja foram descritas, com bons resultados. 

A eletroquimioterapia utilizando bleomicina intralesional também apresenta boas respostas em literatura, para casos onde a cirurgia excisional não é uma opção. 

Antinflamatórios não esteroidais: Inibidores seletivos de COX-2 são usados para tratamento da queratose actínica em humanos.

Os CCE induzidos por luz solar expressam COX de maneira mais abundante que outras lesões. 

Como AINE, estes medicamentos proporcionam alívio da inflamação local associada ao tumor, dor e edema regional. 

Ainda, existem evidências de que os inibidores da COX também apresentam efeitos antitumorais.

Assim, pode haver uma função dos inibidores da COX-2 além do controle da inflamação e dor associados a essas lesões, mas mais estudos precisam ser feitos nessa área para entender este potencial mais claramente. 

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