Brucelose canina

Dra. Claudia Brito

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nome em Inglês

Canine Brucellosis

Definição

Doença infecto-contagiosa caracterizada principalmente por problemas na esfera reprodutiva de cães, sendo responsável por perdas econômicas importantes em canis de todo o mundo. Considerada uma zoonose também.

Fisiopatologia

A transmissão se dá principalmente pela via reprodutiva, durante o acasalamento, pelas secreções vaginais ou sêmen. Acredita- se que nos neonatos, essa transmissão ocorra durante a gestação, mas outros autores acreditam que a transmissão possa ocorrer pelo leite. A urina no período de bacteremia, é uma via importante de disseminação, principalmente nos machos. Outras possíveis fontes de infecção são: secreção nasal e ocular, saliva e fômites contaminados. A bacteremia pode iniciar de 1 a 4 semanas pós infecção, causando sintomas diversos dependendo do local de instalação. A imunidade celular é dependente dos períodos de bacteremia, podendo ter anticorpos protetores por 4 a 12 semanas, que declinam após a resolução do quadro, ainda que a bactéria esteja presente nos tecidos. Os episódios de bacteremia podem durar anos. Cães infectados podem apresentar hemocultura positiva após 5 anos e meio.Esquema Brucelose

Etiologia

O principal agente é a Brucella Canis, porém pode estar associado a outros tipos como Brucella abortus, Brucella melitensis e Brucella suis.

Maior ocorrência

A Brucelose canina ocorre principalmente em canis comerciais, causando problemas na esfera reprodutiva, portanto não possui uma predisposição racial. Acomete animais jovens, em idade reprodutiva. É uma doença que aparece principalmente no Sul dos Estados Unidos, na América Central e na América do Sul.

Achados de anamnese

Como trata-se de uma doença que afeta principalmente a esfera reprodutiva, normalmente são fêmeas de canis apresentando histórico de problemas reprodutivos como dificuldade em emprenhar ou abortamento; ou machos que podem apresentar prostatite ou falha em fertilizar a fêmea. Cães mais jovens podem apresentar quadro de paralisia de posteriores aguda, sem histórico de trauma, ou de dor aguda na região da coluna. Alterações oculares também podem ocorrer.

Manifestações clínicas

Animal com brucelose pode ter sinais clínicos não específicos como letargia, fadiga, pelame mais rarefeito, perda de peso, intolerância a exercícios e linfadenopatia em fases iniciais. Com a progressão, esplenomegalia e uveíte podem ocorrer. Outros sinais como fadiga muscular, dor em coluna, disfunção neurológica, podem estar associados e compressão medular por discoespondilite. O veterinário deve ter em mente sempre a Brucelose como diagnóstico diferencial nas uveítes e casos de discoespondilite, principalmente em animais não castrados.

Nas fêmeas reprodutoras:

  • Falha de concepção, por reabsorção embrionária
  • Aborto entre 40 e 55 dias de gestação (fetos autolisados apresentando edema de subcutâneo, congestão e fluido peritoneal sanguinolento)
  • Se a cadela levar a gestação a termo, esses fetos podem nascer com baixo peso (dismaturos) e fracos.

Machos reprodutores:

  • A Brucella canis localiza-se principalmente no epidídimo e próstata, podendo causar epididimite e prostatite numa fase mais aguda. Portanto o animal pode apresentar dor à palpação, dermatite de bolsa escrotal por lambedura local (devido a dor).
  • Em uma fase mais crônica o epidídimo pode apresentar-se mais firme a palpação e o quadro evoluir para uma degeneração testicular.

Alguns machos podem não apresentar sintomas clássicos da doença, mas podem ter alterações no sêmen, que resultam em dificuldade em emprenhar fêmeas. São grandes reprodutores que passam a não mais emprenhar as fêmeas.

Procedimentos diagnósticos

  • Hemocultura: melhor método diagnóstico para infecções recentes e para animais que não receberam antibioticoterapia. Os cães iniciam a bacteremia em 2 semanas pós infecção que pode persistir por um ou dois anos, se não tratada. Autores preconizam a colheita de pelo menos 3 amostras com intervalo de 24 horas. Resultados negativos não excluem a infecção por Brucella canis.
  • Cultura de secreções: Numa fêmea com aborto recente deve-se fazer a cultura do produto abortado, placenta ou da secreção vaginal pós aborto. Cultura de urina (por cistocentese) e sêmen nos machos, principalmente a fração prostática. Deve-se tentar ao máximo não contaminar as amostras, pois a Brucella é uma bactéria de crescimento lento e a presença de outras bactérias pode suplantar o crescimento dela. 
  • Testes sorológicos: anticorpos podem ser detectados de 2 a 3 semanas pós infecção. Os testes sorológicos são indicados apenas como método de triagem principalmente em local com grande população (canis), sendo a soroaglutinação rápida em tubo com 2-mercaptoetanol (ME-SART) o mais indicado por ser mais específico e dar menos falsos positivos. O exame de ELISA também pode ser utilizado. Nenhum animal deve ser tratado ou eutanasiado apenas baseado no exame sorológico, uma vez que podem apresentar falsos positivos. Os positivos devem obrigatoriamente ser submetidos a testes de isolamento do agente como hemocultura, cultura de secreções e PCR.

O exame de PCR indicado é o designado a detectar a Brucella canis (DNA) no sangue total, secreção vaginal, urina, sêmen e produtos abortados. É mais sensível e específico que a hemocultura e com resultados mais precoces, porém com custo bem mais alto que os demais métodos diagnósticos.

Diagnósticos diferenciais

Doenças infecto-contagiosas que podem causar abortamento ou reabsorção embrionária nas fêmeas como: Campylobacter spp, Salmonella spp e Escherichia Coli, Leptospirose, Herpesvirose tipo I.

Terapia inicial

Animais que apresentam sinais clínicos da doença podem ser tratados com antibioticoterapia, mas o veterinário deve ter em mente que o tratamento não livra o animal da doença, uma vez que a Brucella é uma bactéria intracelular e pode persistir no organismo por anos. A castração dos animais é imperativa, a fim de diminuir as possibilidades de infecção, mas lembrar que a urina, principalmente dos machos, ainda dissemina a bactéria, podendo contaminar outros cães ou humanos.

Não há consenso em relação a qual protocolo de antibioticoterapia é mais efetivo, mas acredita-se que a monoterapia seja menos efetiva. Seguem algumas sugestões de protocolos na tabela abaixo.

 

Antibiótico Dose e via Frequência Duração
Tetraciclina 30mg/kg/VO cada 12 horas 28 dias
Estreptomicina 20mg/kg/IM cada 24 horas 14 dias
Minociclina 25mg/kg/VO cada 24 horas 15 dias
Diidroestreptomicina 5mg/kg/IM cada 12 horas 7 dias
Oxitetraciclina 20mg/kg/IM uma vez por semana 4 semanas
Estreptomicina 20mg/kg/IM cada 24 horas 7 dias
Enrofloxacina 5mg/kg/VO cada 12 horas 30 dias
Doxiciclina 5 mg/kg/VO cada 12 horas 30 dias

 

Quando nos deparamos com animais positivos ligados à canil o tratamento muda, podendo ser discutido nos fóruns.

Terapia de suporte e manutenção

Todo animal tratado e castrado deve ser acompanhado e testado periodicamente. Os animais precisam apresentar pelo menos 3 exames consecutivos negativos, preferencialmente a sorologia e hemocultura e depois reteste bianual, por mais 3 a 5 anos.

Prognóstico

Prognóstico é bom uma vez que dificilmente o animal vem a óbito pela brucelose, porém ele se torna um potencial disseminador da doença para cães e humanos. Tudo deve ser explicado ao tutor, e a decisão de manutenção do animal no meio de convívio dependerá da decisão dele.

Literatura recomendada

APPARICIO, M.; VICENTE, W.R.R. Reprodução e Obstetrícia em cães e gatos. 1. ed. São Paulo: MEDVET, 2015. 458p.

KAUFFMAN, L.K.; PETERSEN, C.A. Canine Brucellosis: Old foe reemerging scourge. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2019 Jul;49(4):763-779.

MOL, J.P.S.; GUEDES, A.C.B.; ECKSTEIN, C.; QUINTAL A.P.N.; SOUZA T.D.; MATHIAS, L.A.; HADDAD, J.P.A.; PAIXÃO, T.A.SANTOS, R.L. Diagnosis of canine brucellosis: comparison of various serologic tests and PCR. J Vet Diagn Invest. 2020 Jan;32(1):77-86.

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