Aspergilose Sistêmica

Dr Maurício Piovesan Henrique

Ultima atualização: 30 DEZ DE 2019

Nomenclatura (sinônimos)

 

 

Aspergilose disseminada

Nome em inglês

Systemic aspergillosis

Definição

Por definição, a aspergilose sistêmica refere-se à doença causada por fungos do gênero Aspergillus em um ou mais órgãos, além do trato respiratório.  

Fisiopatologia

Para a ocorrência da aspergilose sistêmica, após a inalação dos esporos (principal via de infecção), ocorre acometimento fúngico nos pulmões, podendo causar broncopneumonia necrosante ou hemorrágica, e posterior fungemia. Após esta disseminação, o agente pode atingir diversos sítios, sendo os mais comumente relatados os discos intervertebrais, baço, coração, ossos, glomérulos renais e olhos. Parte destes sítios preferenciais referem-se a regiões com menor fluxo sanguíneo – isso é um fator importante para o desenvolvimento de colônias de Aspergillus. 

Quando se trata dos gatos, é sabido que a aspergilose pulmonar é rara, e os órgãos mais acometidos são rins, baço e ossos. 

Ressalta-se que os esporos são inalados constantemente pela ampla distribuição ambiental do agente, e podem inclusive ser encontrados na cavidade nasal de cães sadios. Assim, normalmente há desenvolvimento de doença naqueles animais imunocomprometidos. 

 

Etiologia

Existem mais de 180 espécies para o gênero Aspergillus, todas sapróbias e oportunistas.

São microrganismos aeróbios, alguns altamente resistentes ao calor e à dessecação, e crescem em todos os meios comuns empregados em laboratório.

Tais agentes podem ser isolados de matéria orgânica, solo, água, detritos vegetais e ar atmosférico – trata-se de um agente cosmopolita. 

Para cães e gatos, as espécies de maior importância como causadoras de aspergilose são A. fumigatus e A. terreus, sendo a segunda mais relacionada à aspergilose sistêmica. 

Maior ocorrência (raça, idade, gênero, localização geográfica)

Os fungos do gênero Aspergillus apresentam distribuição mundial, com elevada importância especialmente em países de clima quente. Em comparação com a literatura mundial, são escassos os relatos de aspergilose em cães e gatos no Brasil, o que dificulta a análise epidemiológica acurada. 

A forma sistêmica da aspergilose é bastante rara, sendo menos prevalente que a forma nasal. Existe, na literatura, uma relatada predisposição da raça Pastor Alemão, em idades de 2 a 8 anos, para a aspergilose sistêmica. As razões para uma maior predisposição nesta raça incluem uma deficiência funcional nas células NK (natural killer) e linfócitos T além de uma diminuição da resposta imune humoral, com baixas concentrações de IgA e/ou IgM contra o fungo. 

Em gatos, a ocorrência da doença é extremamente rara.

Achados de anamnese

Normalmente, a suspeita diagnóstica se inicia na resenha: geralmente, há uma maior predisposição em cães, especialmente os da raça Pastor Alemão, jovens.

Com relação à queixa principal, podem ser referidos desde sinais inespecíficos até a impressão de dor em membros e coluna e impotência funcional.

Dependendo dos sistemas acometidos, podem ser referidos sinais neurológicos, oculares, urinários e respiratórios. 

Outra informação bastante relevante obtida em anamnese é quanto à possibilidade de eventos imunossupressores no animal: utilização de corticoides ou outros imunomoduladores (azatioprina, micofenolato, etc), ocorrência concomitante de outro agravo sistêmico (especialmente doenças neoplásicas), quimioterapia em curso, antibioticoterapia prolongada ou má nutrição. 

Manifestações clínicas

Por conta da comum ocorrência de discoespondilites e osteomielites, os sinais mais observados na aspergilose sistêmica são dor em membros, dor cervical e relutância ao levantar, correr ou saltar.

A depender do acometimento de outros órgãos, podem ocorrer sinais neurológicos (aspergilose em SNC), uveítes (aspergilose ocular), poliúria, polidipsia, incontinência urinária, hematúria (aspergilose renal) e dispneia associada a expectoração sanguinolenta e tosse (pneumonia fúngica).

Sinais inespecíficos como pirexia, anorexia, perda de peso, fraqueza e vômitos podem estar presentes. 

A predisposição em Pastores Alemães é tão importante que é recomendado que para toda uveíte nessa raça seja investigada aspergilose, pois em cerca de um terço dos casos de uveíte pode-se detectar aspergilose disseminada ocorrendo concomitantemente. 

Procedimentos diagnósticos

 

  • Exames laboratoriais

 

A avaliação hematológica geralmente é inespecífica, com achados como leucocitose por neutrofilia e linfopenia, similar à do leucograma de estresse. 

No perfil bioquímico, pode-se verificar azotemia e aumento das enzimas hepáticas. 

O exame de urina é uma ferramenta interessante nos casos de aspergilose disseminada, pois devido ao envolvimento renal, é possível encontrar hifas do Aspergillus no fluido urinário. 

 

  • Exames de imagem

 

Na radiografia de tórax, é possível a visualização de padrão intersticial nodular miliar generalizado, além de linfoadenopatia peri-hilar. 

Na radiografia e tomografia de coluna e outros segmentos ósseos, podem ser observadas alterações condizentes com discoespondilites e osteomielites. 

 

 

  • Cultivo e identificação

 

O cultivo e isolamento das espécies de Aspergillus pode ser feito a partir de fragmentos de tecido ou órgão lesado, bem como fluidos corpóreos como sangue e urina. 

 

  • Exame histopatológico

 

No exame histopatológico de tecidos lesados, à semelhança da aspergilose nasal, podem ser evidenciados focos de necrose e placas de exsudato fibrinopurulento com hifas de fungos. 

 

  • Testes sorológicos

 

A sorologia pode contribuir para o diagnóstico, a partir dos testes de difusão dupla em ágar gel, contraimunoeletroforese e ELISA. Porém, isoladamente, tais técnicas não são indicadas para o diagnóstico, pela ocorrência de falsos positivos e reatividade cruzada com Penicillium spp.

 

Diagnósticos diferenciais

Os diagnósticos diferenciais para a aspergilose sistêmica dependerão dos órgãos e sistemas envolvidos. 

Quando da ocorrência de discoespondilite e osteomielite, os agentes bacterianos são os principais diferenciais (infecção por S. pseudintermedius, Brucella canis, Nocardia spp., Mycobacterium spp).

Quando ocorre acometimento respiratório, as pneumonias bacterianas compõem o principal diferencial. Nas manifestações urinárias, infecção do trato urinário, prostatites e neoplasias devem ser consideradas.

Na forma ocular, erlichiose, leishmaniose e linfoma são hipóteses diferenciais plausíveis.

Quando há acometimento do SNC, alterações degenerativas, infecciosas/inflamatórias, nutricionais, metabólicas, vasculares e neoplásicas devem ser abordadas. 

Terapia inicial

O tratamento para aspergilose disseminada é longo e bastante delicado, pois geralmente requer a associação da anfotericina B, aplicada por via endovenosa, com um azol, por exemplo o itraconazol e o fluconazol.

Ressalta-se que A. terreus tende a apresentar resistência à anfotericina B, o que dificulta o tratamento quando tal agente etiológico é isolado.

Terapia de suporte e manutenção

É essencial o monitoramento de terapia com exames de sangue, especialmente de função hepática, quando do uso crônico de agentes antifúngicos. 

Especialmente quando utilizada a anfotericina B, o animal deverá ser submetido à internação, pois a droga requer a infusão lenta pela via endovenosa. Ainda, por ser nefrotóxica, requer o monitoramento da função renal de maneira sistemática. 

 

Prognóstico

Quando da ocorrência da forma sistêmica, o prognóstico é mau, tanto para cães quanto para gatos. 

Literatura recomendada

CARVALHO, Gabrielle Sousa. Aspergilose Pulmonar em Cão. 2013.

 

FERREIRA, Rafael Rodrigues et al. Infecções fúngicas do trato respiratório de cães e gatos Fungal infections of the respiratory tract of dogs and cats. Acta Scientiae Veterinariae, v. 35, n. 2, p. 285–288, 2007.

 

FERREIRA, Rafael Rodrigues. PESQUISA SOROLÓGICA DE ASPERGILLUS FUMIGATUS E CULTIVO FÚNGICO DE AMOSTRAS OBTIDAS DE CÃES COM DESCARGA NASAL. Orientador: Prof. Dr. Laerte Ferreiro. 2008. 60 p. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) - Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.

 

SANCHES, P.P., COUTINHO, S.D. Aspergilose em cães – revisão. Rev Inst Ciênc Saúde, v. 25, n. 4, p. 25–26, 2007.

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