Amiloidose renal em felinos

Dra. Paola Lazaretti

Ultima atualização: 21 JAN DE 2020

Sinônimos

Amiloidose renal, insuficiência renal por amiloidose.

 

 

 

Nome em inglês

Renal amyloidosis.

 

Definição

Amiloidose é um termo utilizado para descrever um grupo de doenças em que ocorre o depósito extracelular de um material proteico-fibrilar, amorfo e eosinofílico.

Em animais, os principais tipos de proteína relacionadas a doenças sistêmicas são: proteína amilóide A (AA) e a proteína amilóide de cadeia leve (AL). 

A proteína amilóide AA é uma proteína de fase aguda, derivada da proteína amilóide A sérica (SAA), que é uma apolipoproteína produzida pelos hepatócitos e detectada no plasma durante processos inflamatórios. 

Amiloidose familiar é uma forma sistêmica e hereditária da amiloidose AA, e foi descrita em gatos Abissínios, siameses, gatos orientais e cães da raça Shar-pei.

O amilóide AA é encontrado tanto na amiloidose familiar como na amiloidose secundária. 

Fisiopatologia

A proteína amilóide A (AA) é formada pela polimerização da porção terminal amino da proteína amilóide A sérica (SAA).

A proteína amilóide sérica é um proteína de fase aguda que é produzida e liberada pelos hepatócitos em resposta a várias citocinas.

As concentrações de SAA aumentam 100-1000 vezes em resposta à lesão tecidual e retornam ao valor de base 36-48 horas após a remoção do estímulo inflamatório.
No entanto, as concentrações podem permanecer elevadas em face da inflamação crônica.

Como a amilóide A está associada a várias doenças inflamatórias, ela também é conhecida como amiloidose reativa.

Existem variações na capacidade de degradar a SAA, o que ajuda a explicar porque apenas um pequeno número de animais com inflamação crônica desenvolve amiloidose, estas variações podem ser hereditárias ou adquiridas.

A proteína amilóide é insolúvel e resistente à proteólise devido a sua configuração ß em folha plissada.

A deposição de amilóide ocorre em fases:

  • Fase de pré-deposição:
    Elevada concentração de SAA, sem deposição em tecidos.

 

  • Fase de deposição:
    Fase de deposição rápida: Fase onde os depósitos ocorrem rapidamente.

 

  • Fase de deposição platô: Fase onde os depósitos se estabilizam.

 

Em Abissínios os rins são os órgãos mais comumente afetados e os depósitos ocorrem mais geralmente no interstício medular mas podendo em alguns casos também afetar o córtex.

Em gatos siameses e oriental de pelo curto a deposição de amilóide pode ser sistêmica e ocorrer em tecido hepático, podendo levar a ruptura hepática com hemorragia, bem como em tecido respiratório, e ótico.

Amiloidose pode ocorrer em diversos órgãos: estômago, intestinos delgado e grosso, coração, tireóide, baço, glândulas adrenais, pâncreas, fígado, linfonodos e pulmões.

Etiologia

Amiloidose pode ter causa genética ou adquirida causada por inflamação crônica.

A inflamação crônica, pode ocorrer devido a infecções micóticas sistêmicas, infecções bacterianas crônicas, infecções parasitárias, doença imunomediada e neoplasia.

A amiloidose genética em gatos parece seguir um padrão de herança dominante em abissínios, siameses e Gatos de pêlo curto oriental.

Em um estudo de 34 gatos infectados naturalmente pelo vírus da imunodeficiência felina (FIV), 12/34 gatos tiveram amiloidose diagnosticada em histopatologia.

Cães da raça Shar pei apresentam amiloidose hereditária principalmente renal e hepática, e apresentam febre e edema de membros pélvico (Febre do Shar-pei).

Maior ocorrência

Cães:

Shar-pei apresentando a forma genética (renal e hepática), qualquer outra raça podem apresentar a amiloidose adquirida (reativa).

Gatos:

Abissínio (renal) herança provavelmente de padrão dominante,
Siameses, e orientais (Sistêmica).

A idade média de diagnóstico é de 7 anos.

Achados de anamnese

Geralmente observa-se perda de peso, vômito, anorexia, letargia, poliúria, polidipsia, ou seja alterações decorrentes da insuficiência renal decorrente da deposição de amilóide.

Manifestações clínicas

O exame físico pode demonstrar desidratação, mucosas pálidas, úlceras orais, pelame opaco e os rins podem ser pequenos à palpação, firmes e irregulares.

Caso apresentem síndrome nefrótica, pode-se observar ascite e edema.

Siameses e orientais, podem se apresentar com hemoabomen agudo devido a ruptura hepática.

Existe relato de um siamês que apresentou hemorragia ótica e respiratória decorrente de amiloidose sistêmica.

Procedimento diagnósticos

  • Hemograma completo (CBC): pode ser inespecífico ou demonstrar inflamação inespecífica. Em caso de amiloidose renal, pode-se observar anemia não regenerativa característica da insuficiência renal.
  • Painel de Bioquímica sérica: sem alterações ou pode apresentar azotemia, hiperfosfatemia, hipercolesterolemia, leve hiperglicemia e acidose metabólica também característicos de envolvimento renal.Em alguns casos pode-se observar hipoalbuminemia devido à proteinúria glomerular. Hiperglobulinemia pode estar presente decorrente de processo inflamatório crônico.
  • Urinálise ou Urina I: Pode-se observar isostenúria e cilindros. Observa-se proteinúria significante quando existe envolvimento glomerular.
  • Pressão arterial: pode apresentar-se elevada.
  • Fração de proteína / creatinina urinária: eleva-se em casos apresentando proteinúria (cães >0,5 e gatos > 0,4).
  • Radiografia e Ultrassonografia: Nem sempre mostram alterações, mas os rins e fígado podem se apresentar hiperecóicos.
  • Histopatologia: O diagnóstico definitivo só pode ser feito com biópsia e estudo histopatológico.
    Normalmente a biópsia renal deve conter somente tecido cortical, e em alguns casos o amilóide se deposita principalmente na medula (Abissínios), nestes casos o diagnóstico pode ser dificultado, e pode exigir uma biópsia em cunha, mais agressiva. Caso exista comprometimento hepático uma biópsia do fígado pode auxiliar no diagnóstico. As anormalidades histopatológicas incluem necrose papilar, nefrite tubulointersticial crônica com fibrose, e depósitos de amilóide glomerular. Sob microscopia de luz, quando corado com hematoxilina eosina observa-se um material homogêneo e eosinofílico no parênquima afetado. Quando corados com vermelho do Congo, sob luz polarizada o depósito amilóide aparece verde brilhante.

Terapia de suporte e manutenção

A terapia de suporte envolve controle das alterações causadas pela insuficiência renal.

Em gatos apresentando amiloidose hepática recomenda-se o tratamento com Vitamina K e repouso.

Deve-se monitorar o animais estáveis a cada 2-6 meses com exames físicos, hemograma completo, bioquímica sérica para avaliação da função renal, hepática e eletrólitos, exame de urina e aferição da pressão arterial.

Os animais afetados não devem ser usados para reprodução.

Prognóstico

A maioria dos gatos com amiloidose renal apresentam sobrevida de < 1 ano após diagnóstico.

Literatura recomendada

Vaden SL: Glomerular Diseases. Textbook of Veterinary Internal Medicine , 7th ed. St. Louis, Saunders Elsevier 201 pp. 2030-2031.
DiBartola SP: Renal Diseases of the Cat. Atlantic Coast Veterinary Conference 2003.
Autran de Morais H, DiBartola SP: Amyloidosis. Blackwell’s Five Minute Veterinary Consult: Canine and Feline Ames, Blackwell Publishing pp 200 pp. 64-65.
Pressler B M, Vaden S L: Managing Renal Amyloidosis in Dogs and Cats. Vet Med, 26 Refs ed. 2003 Vol 98 (4) pp. 320-32.
DiBartola S P, Tarr M J, Benson M D: Tissue distribution of amyloid deposits in Abyssinian cats with familial amyloidosis. J Comp Pathol 1986 Vol 96 (4) pp. 387-98.
Niewold T A, van der Linde-Sipman J S, Murphy C, et al : Familial amyloidosis in cats: Siamese and Abyssinian AA proteins differ in primary sequence and pattern of deposition. Amyloid 1999 Vol 6 (3) pp. 205-09.
Asproni P, Abramo F, Millanta F, et al : Amyloidosis in association with spontaneous feline immunodeficiency virus infection. J Feline Med 2013 Vol 15 (4) pp. 300-6.
Mawby DI, Whittemore JC, Donnell RL, Fatal pulmonary hemorrhage associated with vascular amyloid deposition in a cat. Journal of Feline Medicine and Surgery Open reports. 2018 Jul-Dec; 4(2)

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