Acromegalia Felina

Dr Leandro Haroutune Hassesian Galati

Ultima atualização: 24 AGO DE 2020

Nomenclatura

Hipersomatotropismo

Nome em inglês

Acromegaly, Hypersomatotropism

Definição

A acromegalia é uma endocrinopatia resultado dos efeitos excessivos do hormônio GH (Hormônio do Crescimento) sobre animais adultos, seja pela hipersecreção pituitária ou iatrogenia.

Os indivíduos acometidos cursam com organomegalia, hipercrescimento ósseo e de tecidos conjuntivos, e ainda, resistência insulínica.

Fisiopatologia

A produção e armazenamento do GH se dá pelas células somatotróficas, na adeno-hipófise, e sua liberação se dá sob os efeitos de hormônios hipotalâmicos, como o GHRH (Hormônio Liberador do Hormônio de Crescimento), que exerce feed-back positivo, e a somatostatina, que exerce feed-back negativo.

O GH assume diversos papeis no organismo, sobretudo os efeitos sobre o crescimento corporal e mecanismos de reparação tecidual, ou seja, efeitos anabolizantes.

Uma série de fatores e condições estimulam a produção deste hormônio, como o exercício, o jejum, o Diabetes Mellitus, o hipotireoidismo, progestágenos e estrógenos, doença renal crônica e o estresse. 

Os efeitos da secreção excessiva crônica de GH são tanto catabólicos quanto anabólicos.

As concentrações aumentadas de IGF-1 resultam nos efeitos anabólicos, tais como proliferação óssea, de cartilagens, tecidos moles e na organomegalia, principalmente rins e coração.

Os efeitos anabólicos resultam na sintomatologia clássica.

Já os efeitos catabólicos são resultado direto da resistência insulínica induzida pelo GH, o que leva à intolerância a carboidratos, hiperglicemia e o desenvolvimento de Diabetes Mellitus.

Etiologia

A causa mais comum de acromegalia em gatos é o adenoma de células somatotróficas da pars distalis da glândula pituitária (Adenoma Hipofisário Somatotrófico), que produz excesso de GH.

A indução da acromegalia por progestágenos não é documentada em gatos, pois os níveis séricos de GH e IGF-1 não são afetados significativamente pela secreção ectópica mamária. 

Maior ocorrência

A acromegalia acomete sobretudo gatos machos de meia idade (média de 8 anos), sem predisposição racial.

Achados de anamnese

A anamnese pode ser paradoxal quanto ao ganho ou perda de peso, de acordo com a fase em que se encontra o paciente.

A maioria dos gatos têm perda de peso inicial, estabilizam e progressivamente ganham peso, resultados dos efeitos anabólicos do IGF-1.

Outros relatos podem incluir poliúria, polidipsia, prognatismo, claudicação, dispneia e respiração ruidosa.

A polifagia é bastante intensa e geralmente é achado comum de anamnese. Alterações quanto a conformação do animal (crescimento da face e membros) pode não ser notada pelo proprietário, porém por aqueles que têm contato eventual com o animal.

Manifestações clínicas

Os gatos com acromegalia apresentam crânio desproporcionalmente grande, prognatismo, aumento de volume abdominal (resultado de organomegalia) e massa muscular firme e volumosa.

Alguns animais podem apresentar artropatia, com achados no exame ortopédico como crepitações e algia, sobretudo em articulações escapulo umeral, umeroradioulnar, carpos e sinais de doença intervertebral.

Pode haver manifestações de insuficiência cardíaca congestiva, a exemplo de efusão pleural e edema pulmonar.

Alterações na orofaringe, decorrente do crescimento de tecidos moles, pode levar a respiração ruidosa. 

Podem haver manifestações neurológicas, tais como estupor, head-pressing, andar em círculos, convulsão e mudanças comportamentais, resultados do efeito de massa nos quadros de adenoma hipofisário somatotrófico.

É um elemento de suspeição a ausência de perda de peso em gatos diabéticos descontrolados.

Procedimentos diagnósticos

O diagnóstico definitivo da acromegalia felina se dá ao demonstrar-se as elevações de GH ou IGF-1 séricos.

No caso do GH, este pode ser um tanto quanto desafiador, devido a dificuldade em se encontrar imunoensaios espécie-específicos.

O IGF-1 pode ser uma melhor opção, uma vez que imunoensaios humanos podem ser utilizados.

Em fases iniciais da doença podem ser encontrados valores limítrofes ou pouco aumentados, aconselhando-se que sejam feitos exames seriados trimestrais por exemplo.

Outras avaliações laboratoriais podem revelar alterações, em sua grande maioria compatíveis com Diabetes Mellitus, a exemplo de hiperglicemia persistente, hiperlipidemia e aumento de enzimas hepáticas.

A eritrocitose e a hiperfosfatemia são outros achados em felinos.

Os exames de imagem podem revelar alterações ósseas, tal como ao RX evidenciar-se artropatias e aumento mandibular.

Ao exame de RM ou TC pode-se avaliar aumento de volume hipofisário, indicativo do macroadenoma secretor de GH.

Diagnósticos diferenciais

O Diabettes Mellitus tipo II é o principal diferencial da acromegalia em felinos.

Deve-se atentar que uma característica importante dos gatos com resistência insulínica portadores de acromegalia é a alta necessidade de insulina (> 2UI/kg) para o controle glicêmico.

O hiperadrenocorticismo também trata-se de um diferencial importante, uma vez que é um outro fator relacionado à resistência insulínica.

Terapia

A terapia da acromegalia felina deve ser, sobretudo de suporte aos efeitos da hiperglicemia e resistência insulínica.

A modalidade medicamentosa pode ser custosa e de difícil acesso. Relata-se o uso da octreotida, na dose de 5 µg/kg pela via intravenosa.

A radioterapia, da mesma forma de difícil acesso, também pode ser uma opção, sendo realizada com cobalto irradiado, demandando infraestrutura adequada e hospitalização.

Já a modalidade cirúrgica, a hipofisectomia transfenoidal, pode ser uma opção mais exequível, embora demande habilidade cirúrgica não rotineira. 

Prognóstico

O prognóstico de gatos com acromegalia resultado de adenoma hipofisário somatotrófico é reservado a mau.

Os pacientes apresentam uma melhora significativa nos momentos iniciais da terapia com o controle glicêmico e demais suportes, contudo, ao progredir da doença as manifestações neurológicas, doença renal crônica, insuficiência cardíaca congestiva e quadros respiratórios são causas frequentes de morte ou eutanásia. 

Literatura recomendada

  • Jericó M. M. Hormônio do Crescimento – Nanismo Hipofisário e Acromegalia In: Jericó, M. M.; Andrade Neto, J. P.; Kogika M. M. Tratado de Medicina Interna de Cães e Gatos. Guanabara Koogan, 1 ed., 2015.
  • Reusch C. Disorders of the Growth Hormone In: Feldman E. C.; Nelson R. W.; Reusch C.; Scott-Moncrieff J. C.; Behrend E. Canine & Feline Endocrinology. Elsevier, 4d, 2015.
  • Niessen S. J. M.; Peterson M. E.; Church D. B. Acromegalia In: Mooney, C. T.; Peterson M. E. Manual de Endocrinologia em Cães e Gatos. Roca, 4d., 2015.
  • Nelson, R. W.; Disorders of the Hypothalamus and Pituitary Gland In: Nelson, R. W.; Couto C. G Small Animal Internal Medicine. Elsevier, 5ed, 2014.

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