BLOG – Sepse em cães e gatos: novo consenso internacional muda a forma de diagnosticar essa sídrome.

O que o novo consenso publicado em 2026 traz para a rotina do médico-veterinário?
A sepse continua sendo uma das principais causas de mortalidade em pacientes críticos na medicina humana e na medicina veterinária. Apesar dos avanços no tratamento intensivo, um dos maiores desafios sempre foi definir exatamente quando um paciente deixa de ter apenas uma infecção e passa a apresentar sepse.
Esse cenário acaba de mudar.
Em 2026, um grupo internacional formado por 12 veterinários especialistas em medicina intensiva publicou o primeiro consenso mundial sobre a definição clínica e os critérios diagnósticos de sepse em cães e gatos. O documento, resultado da revisão sistemática de 352 estudos científicos e de um processo de consenso entre especialistas de diversos países, aproxima a medicina veterinária dos conceitos mais modernos utilizados na medicina humana.
O fim da era da SIRS como critério diagnóstico
Durante décadas, o diagnóstico de sepse em pequenos animais esteve baseado na presença de infecção associada aos critérios da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS), como:
- febre ou hipotermia;
- taquicardia;
- taquipneia;
- alterações na contagem de leucócitos.
Entretanto, o novo consenso mostra que essa abordagem apresenta baixa especificidade.
Muitos pacientes críticos sem infecção podem preencher critérios de SIRS, enquanto diversos animais verdadeiramente sépticos podem não apresentar todos esses parâmetros alterados. Após analisar a literatura disponível, os autores concluíram que as evidências são inconsistentes e insuficientes para manter a SIRS como requisito diagnóstico de sepse.
Isso não significa que frequência cardíaca, temperatura ou leucograma perderam importância. Pelo contrário: continuam sendo parâmetros fundamentais para monitoramento clínico, mas deixam de ser determinantes para estabelecer o diagnóstico.
A nova definição de sepse
O consenso define sepse como:
“Uma síndrome potencialmente fatal associada a uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção, resultando em disfunção orgânica.”
Na prática, isso significa que a presença de infecção isoladamente não caracteriza sepse.
Da mesma forma, uma resposta inflamatória sistêmica isolada também não basta.
O elemento central passa a ser a disfunção de órgãos.
Disfunção orgânica torna-se o principal critério diagnóstico
Talvez a maior mudança proposta pelo consenso seja considerar obrigatória a identificação de disfunção orgânica para que um cão ou gato seja diagnosticado com sepse.
Segundo os autores, o médico-veterinário deve avaliar sistematicamente diferentes sistemas orgânicos em todo paciente com infecção suspeita ou confirmada.
Entre os principais indicadores sugeridos estão:
Sistema cardiovascular
- hipotensão persistente;
- hiperlactatemia;
- necessidade de vasopressores;
- sinais de hipoperfusão.
Sistema nervoso
- alteração do estado mental;
- rebaixamento de consciência;
- convulsões ou encefalopatia.
Sistema renal
- oligúria;
- aumento agudo da creatinina;
- lesão renal aguda.
Sistema respiratório
- síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA).
Sistema hepático
- hiperbilirrubinemia;
- hiperamonemia;
- alteração de ácidos biliares.
Coagulação
- trombocitopenia;
- prolongamento dos tempos de coagulação;
- eventos tromboembólicos.
Sistema gastrointestinal
- íleo;
- intolerância alimentar;
- vômitos persistentes;
- hipertensão abdominal.
Os autores ressaltam que essas alterações devem ser interpretadas considerando doenças pré-existentes, efeitos medicamentosos e outras causas não relacionadas à sepse.
Escores de gravidade ganham protagonismo
Outra importante recomendação do consenso é a utilização rotineira de escores estruturados de gravidade.
O documento destaca especialmente:
- APPLEfast (Acute Patient Physiologic and Lab Evaluation) – Versão Rápida;
- APPLEfull (APPLEfull (Acute Patient Physiologic and Lab Evaluation) – versão completa;
- SPI2 (Survival Prediction Index 2);
- SAPS (Simplified Acute Physiology Score – Adaptado)
- SOFA adaptado (Sequential Organ Failure Assessment – Adaptado para Veterinária), quando disponível.
Esses escores permitem estratificar risco, identificar precocemente pacientes graves, acompanhar evolução clínica e padronizar pesquisas futuras.
Na prática, a recomendação é que esses instrumentos façam parte da avaliação inicial e do monitoramento durante a hospitalização.
Lactato e pressão arterial continuam extremamente importantes
Embora nenhum biomarcador isolado seja capaz de diagnosticar sepse, alguns parâmetros apresentam forte associação com pior prognóstico.
Entre os principais estão:
- concentração de lactato;
- pressão arterial;
- estado mental;
- albumina;
- frequência cardíaca;
- frequência respiratória;
- temperatura corporal.
O consenso enfatiza que a evolução seriada desses parâmetros é mais valiosa do que uma única mensuração, permitindo identificar deterioração clínica e resposta ao tratamento.
Biomarcadores: úteis, mas ainda complementares
Diversos biomarcadores foram analisados na revisão sistemática, incluindo:
- proteína C reativa (PCR);
- proteína amiloide sérica A (SAA);
- procalcitonina (PCT);
- fibrinogênio;
- haptoglobina;
- albumina.
A conclusão foi clara: nenhum deles deve ser utilizado isoladamente para diagnosticar sepse.
Alguns apresentaram utilidade em situações específicas, como a PCR em cães com parvovirose ou piometra e a procalcitonina como potencial marcador complementar, especialmente em gatos para diferenciar infecções bacterianas de virais. Ainda assim, todos devem ser interpretados como ferramentas auxiliares e nunca substituem a avaliação clínica e a identificação de disfunção orgânica.
O que muda na prática clínica?
O novo consenso representa uma mudança importante de paradigma.
O foco deixa de ser a simples identificação de inflamação sistêmica e passa a ser o reconhecimento precoce da falência orgânica causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção.
Para o clínico e intensivista, isso significa:
- abandonar a SIRS como requisito obrigatório para o diagnóstico de sepse;
- avaliar sistematicamente a função dos principais órgãos em todo paciente infectado;
- incorporar escores estruturados de gravidade à rotina hospitalar;
- monitorar parâmetros fisiológicos de forma seriada;
- utilizar biomarcadores apenas como ferramentas complementares.
Conclusão
O consenso internacional de 2026 representa um marco para a medicina veterinária de emergência e terapia intensiva. Ao alinhar a definição veterinária com os conceitos contemporâneos da medicina humana, o documento fornece uma base científica mais sólida para o reconhecimento precoce da sepse e para a padronização do atendimento clínico e das pesquisas futuras.
Mais do que uma simples atualização conceitual, a nova definição reforça uma mensagem essencial: nem toda infecção evolui para sepse, mas toda sepse envolve uma infecção acompanhada de disfunção orgânica potencialmente fatal. Reconhecer essa transição precocemente pode representar a diferença entre a recuperação do paciente e um desfecho desfavorável.
Fonte: Sepsis in Dogs and Cats—Consensus Definition and Clinical Criteria
