Voce sabia que uma Radiografia simples pode ajudar a identificar ruptura uretral em gatos?

A ruptura uretral em gatos costuma ser consequência de traumas graves, como atropelamentos, e pode passar despercebida durante o atendimento inicial — seja pela urgência de outras lesões, seja pela inespecificidade dos sinais clínicos. O exame considerado padrão-ouro para confirmar essa lesão é o estudo contrastado do trato urinário inferior (uretrografia retrógrada ou vaginouretrografia), por radiografia ou fluoroscopia. Mas esses exames nem sempre estão disponíveis de imediato, o que levanta uma pergunta prática: a radiografia simples, já feita rotineiramente em casos de trauma, pode oferecer pistas úteis?
Um estudo publicado no Journal of Feline Medicine and Surgery buscou responder exatamente isso. Os autores compararam radiografias abdominais/pélvicas de 22 gatos com ruptura uretral confirmada com as de 70 gatos sem a lesão. Radiologistas, sem acesso a informações clínicas dos pacientes, avaliaram cada imagem quanto à presença de abaulamento perineal (classificado em leve, moderado ou acentuado) e à heterogeneidade da opacidade dos tecidos moles perineais.
Os resultados mostraram associação significativa entre a ruptura uretral e três achados: presença de abaulamento perineal, abaulamento de maior tamanho e tecido perineal heterogêneo. Isoladamente, o abaulamento perineal apresentou alta sensibilidade (95,5%) e alto valor preditivo negativo (96,4%–97,1%) — ou seja, sua ausência é um bom indicativo de que não há ruptura. Por outro lado, a especificidade (38,6%–47,1%) e o valor preditivo positivo (32,8%–36,2%) foram baixos, o que significa que o achado, por si só, não confirma o diagnóstico. Curiosamente, a ausência de bexiga visível e a presença de fraturas pélvicas, vertebrais ou de membros pélvicos não se mostraram associadas à ruptura uretral.
Na prática clínica, isso significa:
Gatos com histórico de trauma contuso ou lesão iatrogênica no trato urinário devem ser radiografados, com atenção especial a abaulamentos perineais. Quando esse achado está presente — principalmente se acentuado e acompanhado de tecido heterogêneo — um estudo contrastado do trato urinário inferior é indicado para confirmação. A suspeita também deve surgir sempre que o inchaço perineal parecer desproporcional ao trauma local observado, já que rupturas distais podem causar extravasamento de urina nos tecidos periuretrais sem necessariamente gerar urina livre na cavidade abdominal — um sinal que, portanto, pode estar ausente mesmo havendo ruptura.
Por fim, a radiografia simples deve ser usada como triagem, dada sua baixa especificidade , e a decisão de avançar para um estudo contrastado deve sempre considerar o quadro completo: histórico, exame físico, exames laboratoriais e outros métodos de imagem, como a ultrassonografia.
Fonte: Milne J, Sparks T, Brash R, et al. Perineal findings associated with urethral ruptures on plain lateral radiographs in cats. J Feline Med Surg. 2025;27(11).
