BLOG – Prevalência da FeLV no Brasil: o que nós, veterinários, precisamos saber!

A leucemia viral felina (FeLV) continua sendo uma das doenças infecciosas de maior impacto na medicina felina. Recentes levantamentos sobre a prevalência do vírus no Brasil mostram que a infecção está longe de ser homogênea: as taxas variam amplamente conforme a região, a população estudada e até mesmo o método diagnóstico utilizado no estudo.
Abaixo uma tabela mostrando os principais estudos sobre prevalência da FELV no Brasil.
| Estudo | Região | Prevalência de FeLV (%) | População Amostrada | Método Diagnóstico Utilizado |
| Diesel et al., 2024 | Caxias do Sul, Rio Grande do Sul | 30,6% | Gatos domiciliados, atendidos em estabelecimentos veterinários | Teste de antígeno p27, qPCR |
| Lacerda et al., 2017 | Nordeste do Brasil | 3% (domiciliados), 0% (de rua) | Gatos domiciliados e de rua | PCR aninhada, teste imunocromatográfico |
| Costa et al., (Hematological Findings) | Porto Alegre, Rio Grande do Sul | 31% | Gatos atendidos em laboratório veterinário | Imunoensaio (não especificado) |
| Biezus et al., 2019 | Santa Catarina | 28,4% (doentes), 9,9% (saudáveis) | Gatos atendidos em hospital veterinário | Antigenemia (não especificado) |
| Reche et al., 1997 | São Paulo | 1,6% (saudáveis), 10,8% (doentes) | Gatos saudáveis e doentes atendidos em hospital universitário | ELISA (antígeno/anticorpo) |
| Rocha et al., 2019 | Fortaleza, Ceará | 5,8% | Gatos domiciliados, atendidos em clínica privada | ELISA (SNAP Combo) |
| Almeida et al., 2021 | Grande Vitória, Espírito Santo | 33,7% | Gatos indoor/outdoor, com e sem doença | SNAP Combo (IDEXX) |
| Braga et al., 2023 | Manaus, Amazonas | 3% (apenas FeLV), 3% (FeLV + FIV) | Gatos sem raça definida, idade reprodutiva, amostras clínicas | SNAP IDEXX (ELISA) |
| Meinerz et al., 2010 | Pelotas & Rio Grande, Rio Grande do Sul | 38,3% | Gatos semidomiciliados | Imunofluorescência indireta (IFA) |
| Cristo et al., 2019 | Santa Catarina | 78,4% | Gatos com leucemia (casos de necropsia) | Imuno-histoquímica |
Variação regional e populacional
Os estudos analisados e indicados acima indicam que a prevalência da FeLV no Brasil pode variar de 0 a 78,4% dependendo da população estudada. Regiões Sul e Sudeste (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo) apresentaram prevalências mais altas.
- Em gatos domiciliados, os índices apresentados nos levantamentos variaram bastante.
- Já em gatos semi-domiciliados, a prevalência atingiu 38,3%.
Essa heterogeneidade sugere que fatores ambientais, socioeconômicos e relacionados ao manejo desses animais têm papel central na disseminação do vírus.
Fatores de risco
Nos trabalhos acima mencionados podemos ver que diversos fatores foram associados à maior probabilidade de infecção por FeLV, como por exemplo:
- Ausência de vacinação: gatos não vacinados tem até 9,9 vezes mais chance de ter a infecção.
- Acesso à rua: aumenta em aproximadamente 2,7 vezes esse risco.
- Doença clínica pré-existente: risco quase 3 vezes maior.
- Sexo e comportamento (machos agressivos e fêmeas jovens não-castradas) também foram mencionados em alguns estudos.
Esses achados reforçam a importância de orientar todos os tutores sobre a grande importância e relevância da vacinação preventiva contra FELV e a implementação de um manejo seguro, sobretudo em lares com múltiplos gatos.
Nós, veterinários, temos a obrigação de explicar aos nossos clientes todos os riscos relacionados a essa enfermidade, principalmente quando o cliente pensa em trazer um gatinho novo para a casa. E ainda explicar em detalhes as formas de transmissão, que o vírus da FeLV é transmitido por meio do contato direto com secreções corporais de gatos infectados, como saliva, urina, fezes e leite materno, portanto a transmissão pode ocorrer por meio de:
- Compartilhamento de tigelas de comida/água;
- Mordidas e arranhões;
- Lambeduras;
- Contato com caixas de areia contaminadas;
- Transmissão vertical (de mãe para filhote durante a gestação ou amamentação).
Métodos diagnósticos
O tipo de teste empregado influencia diretamente a prevalência encontrada:
- PCR, imunofluorescência e imunohistoquímica detectam mais casos (inclusive infecções regressivas ou latentes).
- Testes rápidos baseados em antígeno (como SNAP/ELISA) são mais acessíveis, mas podem subestimar a taxa real.
Para a prática clínica, isso significa que resultados negativos em testes rápidos devem ser interpretados com cautela, especialmente em animais com sinais clínicos compatíveis.
Manifestações clínicas associadas
As consequências da infecção continuam sendo severas:
- Anemia e linfoma/leucemia foram as condições mais associadas.
- Também foram relatados casos de leucopenia, linfopenia, apatia, anorexia e manifestações neurológicas.
Essas informações reforçam a necessidade de incluir a FeLV no diagnóstico diferencial de diversas síndromes em felinos.
Implicações para a prática veterinária
Os dados brasileiros deixam claro que a FeLV deve ser considerada uma doença prioritária na rotina clínica brasileira.
Todos nós temos um papel preponderante na prevenção dessa retrovirose que não tem cura, portanto vacinar é ainda a única opção viável.
No Brasil, felizmente, já contamos com vacinas contra FeLV sem adjuvantes, como a como a Purevax Recombinante FelV da Boehringer Ingelheim, uma vacina com apenas 0,5ml, protege contra a leucemia viral felina, e se adequa aos conceitos Cat friendly.
A atual recomendação das guidelines de vacinação, é para que a vacina seja iniciada a partir de 8 semanas de idade, com uma segunda dose podendo ser administrada de 3 a 4 semanas depois. Revacinar 1 ano após a última dose da série inicial. Depois disso,
revacinar anualmente os gatos com alto risco contínuo de exposição a gatos infectados com FeLV (dentro ou fora de casa). Revacinar a cada 2 ou 3 anos os gatos com baixo risco de exposição a gatos potencialmente infectados pelo FeLV.
Outras ações fundamentais incluem:
- Triagem regular de todos os gatos, especialmente os que são adotados das ruas, de ONGs, de abrigos, que vieram de locais onde tinham acesso à rua e também os adquiridos de criadores comerciais – TODOS DEVEM SER TESTADOS!
- Isolamento dos gatos que testaram positivo.
- Vacinação preventiva como medida-chave de controle de todos os gatos negativos.
- Educação dos tutores sobre os riscos do contato entre gatos infectados e não infectados e de não deixar os gatos saírem as ruas.
- Uso criterioso dos métodos diagnósticos, considerando que resultados podem variar conforme a técnica utilizada.
Lembrar – a FeLV no Brasil apresenta uma prevalência preocupante, sendo considerada altíssima perto da media global divulgada pela WSAVA (World Small Animal Veterinary Association). Para gatos de rua, pode chegar a 21%, enquanto em gatos domésticos bem cuidados e vacinados, essa taxa geralmente é inferior a 1% – e, mesmo assim, segue representando um desafio para o clínico de felinos.
O manejo adequado, a manutenção dos gatos indoor, a vacinação precoce de todos os gatos contra a FELV e a detecção precoce continuam sendo as melhores ferramentas para reduzir o impacto dessa enfermidade tão grave para os nossos pacientes felinos, e todas essas orientações passam por nós veterinários!
