Blog – Buprenorfina em cães e gatos – particularidades e eficácia analgésica

Dra. Sandra Mastrocinque
O tratamento da dor é imprescindível na medicina veterinária. A dor promove muitos efeitos indesejáveis, dentre eles, comportamento alterado, impacto cardiovascular e respiratório, menor ingestão de alimentos, privação de sono, catabolismo proteico, efeitos que, certamente, causam sofrimento e pioram a recuperação e cicatrização de feridas no período pós operatório, por exemplo.
Os opioides são fármacos muito empregados no controle da dor em cães e gatos, e, se utilizados de forma correta, trarão muitos benefícios para modular a dor de intensidade leve, moderada ou severa.
A buprenorfina é um analgésico opioide semissintético lipofílico, derivado da tebaína, um alcaloide do ópio. É amplamente empregado na analgesia multimodal. Tal agente apresenta farmacodinâmica complexa, e é considerado um opioide agonista mu (m) parcial. Apresenta latência mais longa e maior duração de ação, em comparação com outros opioides.
A buprenorfina se liga fortemente ao receptor mu, porém, não ocasiona efeito máximo, como a morfina, um opioide agonista. Também é classificado, por muitos autores, como um antagonista kappa.
Apesar de sua alta afinidade pelo receptor μ, a buprenorfina apresenta uma atividade parcial; provendo analgesia moderada e sedação variável, sendo, entretanto, muito segura em termos de propiciar poucos efeitos adversos, destacando-se baixa depressão respiratória. A duração de ação longa e os mínimos efeitos cardiovasculares tornam tal fármaco um potente aliado na luta contra dor, podendo, também, ser incluído na medicação pré anestésica dos pacientes, associada ao fenotiazínico acepromazina ou alfa-2-agonistas, como dexmedetomidina. Deve-se ressaltar, entretanto, que a tranquilização ocasionada pela buprenorfina é leve e de latência mais longa.
A biodisponibilidade oral da buprenorfina é baixa, devido ao efeito de primeira passagem hepática. Já foi demonstrado, adicionalmente, que a via subcutânea não é uma rota de administração adequada para que promova analgesia satisfatória. As vias intramuscular e intravenosa são as mais indicadas. Há estudos que avaliaram a via transmucosal em felinos, sendo a mesma, efetiva e de ação analgésica prolongada.
Recomenda-se, para cães e gatos dose de 0,01 a 0,04 mg/kg a cada 6-12h. Devem ser utilizados métodos de avaliação da dor nos pacientes e adequar a posologia de acordo com o grau de desconforto, devendo-se realizar medicação resgate, se necessário. No Brasil, encontra-se formulação de buprenorfina injetável com concentração 0,4mg/ml, para cães e gatos acima dos 3 meses de idade.
Após procedimentos cirúrgicos, como ovariohisterectomia de rotina, orquiectomia, procedimentos ortopédicos de baixa complexidade, em cães e gatos, esse opioide apresenta boa eficácia, mas pode necessitar de medicação resgate após procedimentos que cursam com dor severa.
Demonstrou-se que a buprenorfina apresentou eficácia analgésica similar à morfina após artrotomia em cães, com mínimos efeitos sedativos. É importante ressaltar que há um efeito sinérgico entre tal opioide e AINES, conferindo controle álgico mais adequado.
Estudo realizado em cadelas submetidas à ovariohisterectomia investigou o efeito analgésico da associação de buprenorfina e carprofeno, de forma preventiva, sendo constatado bom controle da dor pós operatória, com mínimos efeitos adversos, que destaca a importância da analgesia multimodal.
Um questionamento de muitos veterinários é se o emprego da buprenorfina poderia ocasionar impacto na utilização de opioides agonistas potentes mu na medicação resgate. Apesar de estudos, com menor número de pacientes, na medicina veterinária demonstrarem que o uso de buprenorfina e sufentanil pode não ser indicado, pois a buprenorfina diminuiria o efeito do opioide. Na medicina, entretanto, demonstrou-se que o emprego de fentanil, um opioide igualmente potente, associado à buprenorfina, ocasiona efeito aditivo.
Conclusão
A buprenorfina tem muitas características únicas que a distinguem de outros agonistas μ-opioides com vantagens clínicas significativas.
A utilização da buprenorfina associada a tranquilizantes ou sedativos favorece a tranquilização, ao mesmo tempo em que permite minimizar a ocorrência de eventos adversos, bem como quando a associação de um anti-inflamatório não esteroidal, como o meloxicam e robenacoxibe, em felinos ou diversas classes de AINES em cães, por exemplo, proporciona melhor analgesia. Cabe lembrar que os AINES não devem ser administrados em pacientes hipovolêmicos ou hipotensos.
Embora seu início de ação seja lento, a buprenorfina tem longa duração de ação, com analgesia boa a moderada e poucos efeitos colaterais. O fármaco pode ser administrado por múltiplas vias e é eficaz tanto em cães quanto em gatos. Os produtos de buprenorfina introduzidos recentemente no mercado brasileiro, como o Beniv proporcionam controle uniforme da dor com a vantagem de exigir administração pouco frequente, com destaque no tratamento da dor em felinos.
