Setembro Amarelo: Medicina Veterinária é a profissão com maior taxa de suicídio

11 de setembro de 2022
noticia- suicidio
Imagem Pxhere

Presidente da Comissão Técnica de Saúde Pública de Veterinária, do CRMV-SP, fala sobre burnout e outros problemas que atingem profissionais do setor

O mês de setembro é marcado, desde 2014, pela campanha Setembro Amarelo, uma iniciativa criada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). O mês inteiro é voltado para essa causa, mas o 10 de setembro é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A campanha deste ano tem como lema “A vida é a melhor escolha” e diversas ações estão sendo desenvolvidas.

Na área da saúde, em geral, o índice de suicídio é preocupante, principalmente na Medicina Veterinária. Segundo Barwaldt e colaboradores (2020), uma pesquisa realizada no DATASUS (portal de dados do SUS – de 2006 a 2009) apontou que a taxa de suicídio de médicos-veterinários era de 10,6:1 em relação à população geral, sendo a profissão com maior taxa de suicídio. E um estudo realizado na Inglaterra apontou, ainda, que os médicos-veterinários têm quatro vezes mais chances de tirarem a própria vida do que a população geral e o dobro de chances entre outros da área de saúde. Desta forma, o acolhimento e acompanhamento psicológico do profissional são de fundamental importância, além de ser necessária a avaliação das condições de trabalho, promovendo-se as mudanças necessárias, de forma a reduzir o risco de novos casos e a reincidência.

A médica-veterinária e presidente da Comissão Técnica de Saúde Pública Veterinária, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Adriana Maria Lopes Vieira, conta que os riscos ocupacionais para suicídio têm sido relatados como um problema em diversas partes do mundo, mas o País ainda apresenta poucos estudos sobre o suicídio na Veterinária. “No Brasil, ainda há poucos estudos sobre suicídio em médicos-veterinários e sugere-se que mudanças aparentes nos padrões de suicídio merecem ser mais bem exploradas, com a necessidade de examinar, por exemplo, a prevalência de depressão e ideação suicida entre esses profissionais, devendo, também, serem considerados fatores psicossociais, características individuais e relativas à profissão, dentre outros”, explica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a síndrome de burnout como uma doença ocupacional, sendo incluída no capítulo de problemas associados ao emprego ou ao desemprego, na Classificação Internacional de Doenças, CID-11. Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três sintomas: sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho e redução da eficácia profissional. A síndrome de burnout é um problema de saúde pública.

De acordo com Adriana, muitos autores sugerem que os médicos-veterinários estão sujeitos, em suas atividades laborais, a situações que podem levar ao estresse crônico, burnout e suicídio. “O setor de produtos, serviços e comércio de animais de estimação no Brasil tem estado em ascensão. Esse crescimento pode ser associado ao grande número de animais e ao status moral destes, atualmente considerados como membros da família. Essa situação aponta para a exigência, pela sociedade, de médicos-veterinários extremamente qualificados, o que pode levar a uma maior cobrança, aumentando a responsabilidade deste profissional”, destaca.

Quais os possíveis gatilhos?

A presidente da Comissão Técnica de Saúde Pública Veterinária do CRMV-SP afirma que os profissionais não são reconhecidos como fundamentais na área da saúde, e acabam assumindo um papel secundário e, muitas vezes, irrelevante perante a sociedade. Ela destaca, também, que situações como falta de reconhecimento e escassez de recursos para investimento e crescimento profissional, aliadas à baixa remuneração e à imagem cultural de que o médico-veterinário deve trabalhar apenas ‘’por amor’’, podem ser o motivo da profissão ser considerada como a mais suscetível a distúrbios comportamentais, relacionados ao estresse, ansiedade e esgotamento mental, que podem levar ao suicídio. Outra situação a ser considerada, segundo Adriana, é que, devido à expectativa de vida dos animais, os médicos-veterinários lidam com a morte cinco vezes mais que as demais profissões.

Apesar da Medicina e da Medicina Veterinária terem evoluído em vários aspectos, alguns temas continuam sendo estigmatizados e falar sobre saúde mental ainda é um tabu. “Ter o tema abordado por instituições e órgãos de classe da Medicina Veterinária mostra que é importante falarmos sobre a questão abertamente, buscando medidas preventivas e melhoras no ambiente de trabalho, e que o médico-veterinário precisa cuidar de sua saúde integral, ficar atento aos sintomas e buscar ajuda, se necessário”.

Adriana afirma que o CRMV-SP reconhece a importância do esclarecimento e da adoção de medidas preventivas para a síndrome de burnout e suicídio. Nesse sentido, o Conselho tem realizado e apoiado a realização de campanhas por meio das mídias sociais, seminários e outros eventos que abordam estes assuntos.

Durante a pandemia, quando a questão do burnout se agravou, foram realizadas duas campanhas nos canais de comunicação do CRMV-SP, voltadas aos desafios emocionais de médicos-veterinários e zootecnistas e a importância do autocuidado. A campanha “Cuidando de quem cuida” incluiu painéis on-line com profissionais de destaque em áreas como psicologia, negócios, carreira, protocolos sanitários e comunicação.

Já com as campanhas “Tem sempre um médico-veterinário cuidando de você” e “Tem sempre um zootecnista cuidando de você”, o CRMV-SP divulgou, também, conteúdos destinados a esclarecer à sociedade sobre as variadas frentes de atuação dos profissionais, reafirmando a importância de médicos-veterinários e zootecnistas para a saúde e subsistência da população.

Ações conjuntas também do Grupo Técnico Interprofissionais (GTI), da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES/SP), do qual o CRMV-SP faz parte, têm abordado a saúde mental dos profissionais de saúde como um todo. Em maio deste ano, foi realizado o 4º Simpósio de Saúde e Bem-estar para Profissionais da Saúde, evento aberto ao público, em que houve palestra com uma psicóloga para falar sobre esta questão da saúde mental na Medicina Veterinária.

O Conselho mantém, ainda, uma página especial sobre burnout, disponível no Menu “Saiba Mais” de sua plataforma. Com o título Precisamos falar sobre a Síndrome de Burnout, o tipo mais devastador de estresse, o CRMV-SP tem como objetivo incentivar debates sobre o tema e orientar os profissionais que passam por esta situação.

Este ano, o Regional não poderá realizar nenhuma campanha de apoio ao Setembro Amarelo, por conta das eleições. “Neste ano, especificamente, devido ao período eleitoral e o parecer do Tribunal Superior Eleitoral, o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP) não podem realizar campanhas publicitárias e institucionais, inviabilizando a divulgação do Dia do Médico-Veterinário e de temas importantes para a Medicina Veterinária, como o em questão”, explica Adriana.

A saúde mental é a chave para o bem-estar, então, é importante buscar ajuda de um profissional sempre que preciso. O esgotamento e o estresse podem causar muitos problemas, em diversas áreas, principalmente naquelas que cuidam de outros seres todos os dias. Quando precisar desabafar, ligue 188 e fale com um dos voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) de sua região. Viver vale a pena, falar é necessário!

Fonte:https://caesegatos.com.br/setembro-amarelo-medicina-veterinaria-e-a-profissao-com-maior-taxa-de-suicidio/

Comentar esta notícia

Você precisa estar logado para comentar as notícias.

©2022 Vetsapiens. Todos os direitos reservados.
Proibida reprodução total ou parcial deste website sem autorização prévia.

OneWeb