ONG treina cães de rua para tratamento terapêutico com idosos e internos em casas de acolhimento de Porto Alegre

27 de abril de 2021
Noticia ong treina caes de rua

No último dia 20, entidade foi reconhecida pela prefeitura como de utilidade pública ao município

Os vira-latas Mingau, Luna, Sol e Pretinha correm até o Guaíba, pulam na água e rolam no cascalho como qualquer cão que cresceu na rua. Ao se aproximarem de algum visitante, no entanto, sentam-se à espera de carinho.

O quarteto de “terapeutas” da Fundação Bichoterapia recebeu treinamento para lidar com idosos e pessoas em casas de acolhimento, como centros de tratamento a dependentes químicos ou lares para crianças judicializadas, que vivem em lares temporários.

Eles são capazes de sensibilizar as pessoas, encantar nossos acolhidos. A visita vira uma festa — afirma a fundadora da ONG, Waleska Cavalheiro, 67 anos.

A terapia assistida com animais tem como objetivo principal integrar os animais, na reabilitação de pessoas com limitações físicas, cognitivas, ou que necessitem de companhia, em momentos de distração.

Nada é cobrado pela fundação para o encontro dos animais com os internos. Os eventos são organizados a partir de contato das psicólogas das instituições com os voluntários. Todas as despesas com deslocamento, hospedagem e manutenção dos bichos são bancados pelos poucos colaboradores — o grupo busca parceiros para amenizar os custos, além de haver espaço para o trabalho de maior recompensa, segundo a coordenadora: conduzir os cães nas visitas.

— Uma vez, a cachorrinha botou as patinhas no joelho de um senhor cadeirante. Ele perguntou de quem era, eu respondi que era minha e ele disse: “dá pra mim”. Se apaixonou. É emocionante — relembra Waleska, citando uma visita aos velhinhos da Sociedade Porto-alegrense de Auxílios aos Necessitados (Spaan).

Procuradora de Justiça, Waleska iniciou as atividades de terapia assistida com os animais em 2014. Na época, apresentou denúncias contra maus-tratos que cavalos sofriam por parte dos carroceiros. Ao assistir a reportagem de uma norte-americana com problemas de audição, auxiliada por um cachorro com treinamento semelhante, decidiu se envolver na causa.

Na última terça-feira (20), a procuradora teve o reconhecimento de suas ações: um projeto de lei da vereadora Lourdes Sprenger (MDB) foi sancionado pela prefeitura, declarando de utilidade pública a Fundação Bichoterapia.

— A titulação é mais uma referência positiva para o trabalho de terapia que eles desenvolvem. Sabemos do belo trabalho, das campanhas beneficentes e também de castração — afirma a parlamentar da Câmara de Porto Alegre.

Catiane Mainardi, diretora-geral do Gabinete da Causa Animal da  prefeitura de Porto Alegre, destaca que a declaração de utilidade pública é um reconhecimento pela relevância e compromisso da ONG:

— No caso da Fundação Bichoterapia, o interesse público reside na promoção da saúde humana e animal, por meio do desenvolvimento, estudo e incentivo a práticas de interação entre pessoas e animais, visando especialmente à realização de tratamentos terapêuticos, a reabilitação de pessoas com necessidades especiais e sua integração à vida comunitária.

Os guaipecas que atuam na terapia foram resgatados próximo a um lixão, na Zona Leste. Têm suas personalidades distintas, o que é importante para cada público atendido, segundo o especialista em comportamento canino Roberto Michaelsen, 61 anos, proprietário da escola de treinamento EducaCão, local onde vivem os animais da ONG.

— Se for atender uma criança hiperativa, é importante ter um cachorro calmo. Se a pessoa é introspectiva, o oposto, um cão mais agitado — exemplifica.

A área de 6 mil metros quadrados fica no bairro Ponta Grossa, extremo-sul da Capital. Além do Guaíba, que oferece mergulhos diários, os pets têm um amplo pátio com árvores à disposição. Ao todo, 30 animais são hospedados atualmente — quatro “terapeutas formados” e outros quatro em processo de se tornarem parte da equipe. A clínica é parceira da fundação no auxílio das despesas.

O adestramento utiliza objetos semelhantes aos que a matilha pode encontrar durante a visita, como cadeiras de rodas e bengalas. O objetivo é deixá-los familiarizados com os acessórios, para garantir que tenham comportamento adequado à necessidade especial de quem recebe a terapia.

A base do tratamento, reafirma Michaelsen, é o amor. Ele dedica a vida ao cuidado com os animais há quase 40 anos:

— Devo tudo que tenho aos cães, e quando posso contribuir para cães e para humanos, dá uma satisfação muito grande. O fantástico é que esses aqui, que desenvolvem a assistência, são os que precisavam de ajuda na rua — diz o empresário.

Pelas redes sociais, dados bancários e campanhas em andamento para ajudar a Fundação Bichoterapia podem ser encontrados. O projeto tem páginas no Facebook e no Instagram.

Após uma rápida escapada ao Guaíba, os cães terapeutas se despediram da reportagem de GZH — muito mais sujos do que no início da manhã desta quinta-feira (22). Ganhariam mais um banho de Versilei Maidana, 39 anos, funcionária da EducaCão há quase uma década.

— Para mim, cuidar deles já é uma terapia. Me curei da depressão com os cães. Não troco esse serviço por nada — garante, com a tropa a caminho do canil.

fonte:https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2021/04/ong-treina-caes-de-rua-para-tratamento-terapeutico-com-idosos-e-internos-em-casas-de-acolhimento-de-porto-alegre-cknt1zhck002x016u8cji7mpc.html

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