Medicamentos devem ser prescritos pelos médicos, não pelo presidente’: o principal cientista brasileiro discute a pandemia

27 de maio de 2020
Noticia-medicamentos desvem prescritos por medicos

ao lado de um rápido aumento nos casos do COVID-19.

Cientistas de todo o país estão lutando contra o sentimento anti-científico. Os pesquisadores brasileiros têm uma batalha em suas mãos. O país possui o terceiro maior número de casos confirmados de COVID-19, com mais de 300.000 infecções e 20.000 mortes. Os cientistas precisam combater não apenas o coronavírus, mas também a postura anticientífica do governo.

O presidente Jair Bolsonaro, que foi fotografado apertando a mão de apoiadores nas últimas semanas, rejeitou as medidas de distanciamento social ao mesmo tempo em que promove fortemente o medicamento antimalárico cloroquina como tratamento para o coronavírus, apesar da falta de evidências de que seja eficaz. O ex-ministro da Saúde Luiz Mandetta foi demitido em meados de abril, após um desentendimento sobre a resposta de Bolsonaro à pandemia. Seu sucessor, Nelson Teich, renunciou em 15 de maio, depois de apenas um mês no cargo.

Apesar da turbulência, os pesquisadores brasileiros estão trabalhando duro para superar os desafios que a pandemia trouxe, diz o físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências do Rio de Janeiro.

Davidovich conversou com a Nature sobre o impacto de atitudes anti científicas e cortes no orçamento no país, bem como possibilidades de pesquisa pós-pandemia.

Qual o papel dos cientistas na pandemia no Brasil?

Os cientistas estão trabalhando intensamente em todo o país. Os engenheiros estão trabalhando para projetar ventiladores confiáveis, mas menos dispendiosos, os químicos estão explorando compostos para possíveis tratamentos e os matemáticos estão usando a inteligência artificial para identificar moléculas que podem ajudar a aliviar a dor dos pacientes.

Físico Luiz Davidovich.Credito: Luiz Davidovich

Também foram realizadas pesquisas sobre possíveis vacinas e ensaios clínicos na cidade de Manaus, na região amazônica, sobre o efeito da cloroquina e hidroxicoloroquina em pessoas com COVID-19. Mas os pesquisadores envolvidos nesses ensaios tiveram sérios problemas por causa de resultados negativos. Como os resultados do teste indicaram que os medicamentos não funcionaram, os cientistas começaram a receber ligações de pessoas que ameaçavam suas vidas e suas famílias. Isso mostra a situação que temos aqui. A Academia Brasileira de Ciências pediu ao governo que apoie esses cientistas e os proteja.

Como a situação afetou a pesquisa que não está relacionada ao coronavírus?

As universidades estão fechadas e não está claro quando serão reabertas. Isso está atrasando a pesquisa, especialmente a pesquisa experimental. Além disso, estar fisicamente presente é muito importante. Você vai almoçar com alguém e tem idéias, fala de maneira informal. Não sei como aplicar zoom a alguém e dizer: “Vamos ter uma idéia” – não funciona assim. Eu realmente sinto falta das conversas quando estamos falando de outra coisa e isso leva a uma nova idéia. Não ter isso afetará definitivamente o desenvolvimento da ciência.

Como os pesquisadores estão lidando com a atitude do governo em relação à ciência?

As organizações científicas estão emitindo declarações públicas criticando a posição anticientífica do governo. Eu e o presidente da Academia Nacional de Medicina assinamos uma declaração sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, declarando o que a ciência sabe sobre esses medicamentos e criticando a posição do governo. Também estamos trabalhando com a mídia. Em uma entrevista na televisão, eu disse que os medicamentos deveriam ser prescritos por médicos, e não pelo presidente do Brasil. Também organizamos uma marcha virtual de dia inteiro pela ciência, na qual essas questões foram discutidas.

Existem partes do país em que funcionários do governo estão mais abertos a aconselhamento científico?

Sim – um bom exemplo é o nordeste do Brasil. Essa é uma das regiões mais pobres e há muito mais cientistas no sudeste do que no nordeste. Mas em março, um comitê científico foi formado para ajudar os governadores dos estados do nordeste. O comitê publicou relatórios sobre o desenvolvimento da ciência e maneiras de restabelecer o que chamamos de ‘novo normal’ no país. Eles estão em contato próximo com os governadores, e esse é um bom exemplo para todo o país. [Os governadores do Rio de Janeiro e São Paulo também formaram comitês consultivos científicos.]

A pandemia está mudando as percepções públicas da ciência?

Estamos tentando avaliar isso mais de perto, mas a ciência está em toda parte na imprensa. Os cientistas estão sendo convidados pelas estações de televisão para falar sobre ciência. As pessoas dizem que a ciência é muito importante no momento – mas, por outro lado, algumas delas ainda pensam que a Terra é plana, que os seres humanos não têm nenhum efeito no clima e que a seleção natural está errada. Mas acho que a mídia brasileira está prestando mais atenção aos cientistas. O jornal nacional O Globo agora tem uma seção chamada ‘A Hora da Ciência’. Apresenta diferentes cientistas falando sobre ciência relacionada à pandemia todos os dias. Espero que eles continuem esta seção após a pandemia.

Que lições o Brasil aprendeu da pandemia de zika que se aplica agora?

Aprendemos que você deve preparar o país de antemão. Quando a epidemia de zika começou, tínhamos laboratórios que ainda podiam funcionar muito bem. Tivemos cooperação entre cientistas de todo o país, e os pesquisadores descobriram maneiras de ajudar as mães a evitar o zika, a tomar precauções. Aprendemos que a cooperação científica é importante. Ter um bom equipamento é importante. Ter boas pessoas é importante. Construímos uma política pública baseada nesse processo de aprendizado? Não, certamente não.

Como os cortes no orçamento afetaram a ciência no Brasil?

Desde 2013, o financiamento da ciência no Brasil diminui constantemente. Temos equipamentos obsoletos em muitos laboratórios, e os laboratórios têm menos suprimentos. Devido a cortes no orçamento da ciência, jovens cientistas deixaram o Brasil. Quatro jovens deixaram meu grupo no ano passado – pessoas brilhantes que foram para outros países. Não é apenas uma questão de falta de recursos. É também o ambiente geral do país, o fato de sentirem que não há incentivo do governo para fazer ciência no Brasil. Isso é ruim para o Brasil, porque são essas pessoas que trazem novas idéias e são muito motivadas.

Que possibilidades você vê para pesquisas pós-pandemia?

A indústria farmacêutica brasileira está focada em medicamentos genéricos, produzindo produtos farmacêuticos originalmente desenvolvidos por empresas de outros países. Existe um paradoxo lá. O Brasil possui cerca de 20% da biodiversidade mundial, e não lucramos com isso, por causa de uma política industrial que apostava em genéricos e não estimulava startups que poderiam usar a biodiversidade brasileira para biomedicina. Essa pandemia deu origem a discussões sobre como ter uma indústria farmacêutica centrada em produtos biofarmacêuticos baseados na biodiversidade brasileira.

doi: 10.1038 / d41586-020-01506-2

Fonte:https://www.nature.com/articles/d41586-020-01506-2?utm_source=Nature+Briefing&utm_campaign=19b73bebd7-briefing-dy-20200526&utm_medium=email&utm_term=0_c9dfd39373-19b73bebd7-45115734

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