Esporotricose Felina (o que é, manifestações clínicas, tratamento)

1 de dezembro de 2021
Esporotricose-Felina

A Esporotricose Felina é hoje a principal dermatozoonose do Brasil, sendo micose subaguda ou crônica que pode atingir tanto animais quanto humanos. 

 

Desde a década de 90, o estado do Rio de Janeiro tem registrado a maior ocorrência da doença. Segundo dados do INI-FIOCRUZ, laboratório de maior referência do estado, em 2015 foram mais de 5 mil casos registrados em humanos e cerca de 4.703 em gatos. 

 

A doença é causada por fungos do Complexo Sporothrix schenckii que é composto das seguintes espécies: Sporothrix albicans, Sporothrix brasiliensis, Sporothrix globosa, Sporothrix luriei, Sporothrix mexicana e S. schencki, este último mais comumente encontrado na madeira, superfície de plantas, troncos e no solo. No Brasil, a espécie mais prevalente é o Sporothrix brasiliensis, adaptado aos felinos e com maior transmissibilidade e virulência que o S. schencki

 

Gatos podem se infectar com contato direto do fungo com lesões ulceradas, através de arranhadura ou mordeduras. Gatos infectados transmitem o fungo para outros gatos, cães e seres humanos. Animais e pessoas imunossuprimidas são as mais vulneráveis a esse tipo de infecção. 

 

O alto índice de abandono de animais infectados é um dos fatores que contribuem ainda mais para a disseminação da doença, sendo uma das grandes preocupações das autoridades de saúde. 

 

“Atualmente a principal forma de transmissão se dá por brigas. Então, a melhor forma de prevenção da esporotricose felina é manter os gatos no domicílio, sem contato com outros animais que possam estar enfermos”, recomenda a doutora Rita Carmona, sócia fundadora do Vetsapiens e membro da atual diretoria científica da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV). 

 

“A castração também é muito importante, uma vez que gatos não castrados têm mais possibilidade de acesso à rua e são eles que fazem mais disputa de território e por fêmeas”, complementa. 

 

“Quando lidamos com populações de gatos em situação de rua, a castração destes animais dentro dos programas de CED ( captura, esterilização e devolução) também pode ser benéfica pois diminuem as brigas entre os machos e a deambulação dos animais”, afirma Rosângela Gebara, sócia fundadora do Vetsapiens e membro do IMVC ( Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo)

 

Manifestações Clínicas

 

A esporotricose pode se manifestar das seguintes formas: 

 

– Forma cutânea: cutâneo localizada, cutâneo-linfática e cutâneo disseminada

– Forma extracutânea: envolvimento de outros órgãos como: olhos, mucosas, ossos

 

Na forma cutânea, geralmente o gato infectado apresenta nódulos firmes de 1 a 3 cm sob a pele e lesões ulceradas com deposição de crostas e exsudato sanguinolento, acomete especialmente na região nasal, pavilhões auriculares e face, podendo disseminar-se. 

 

“A maior parte dos casos felinos é a forma cutânea disseminada. Inicialmente a lesão é do tipo nodular, nódulo-ulcerada que logo se dissemina por uma área corporal”, explica a doutora Rita Carmona. 

 

Os felinos acometidos podem apresentar prostração, perda de escore corporal e linfoadenomegalia. Sem a instituição da terapia, o paciente pode evoluir para óbito.

 

Diagnóstico 

 

O diagnóstico da esporotricose felina baseia-se nos achados de anamnese e no quadro dermatológico, com presença de lesões nodulares, nódulos-ulcerados, úlceras que não cicatrizam, lesões em goma e presença de material sanguinolento com presença de densas crostas hemáticas, especialmente na região cefálica, nasal e membros. Também é comum o aparecimento de áreas de necrose. 

 

Para o diagnóstico diferencial, podem ser investigadas outras doenças que causam lesões cutâneas assim como infecções bacterianas profundas, micobacteriose atípica, criptococose, histoplasmose, neoplasias, leishmaniose e dermatopatias parasitárias. 

 

O diagnóstico pode ser confirmado através de exames laboratoriais como: citologia (citofungoscópico), cultura de fungos, exame histopatológico e até exames sorológicos, hoje disponíveis no Brasil. 

 

A citologia pode ser feita através do método de decalque, através da aposição de uma lâmina sobre a lesão, ou pela punção aspirativa com  agulha fina (PAAF). O material pode ser colocado sobre a lâmina, deslizando uma sobre a outra, fixando-as no ar e enviando-as em um frasco porta-lâminas com o histórico detalhado para um laboratório de referência ou até ser avaliado pelo clínico veterinário. 

 

“O exame citológico é muito importante para o diagnóstico, uma vez que pode revelar presença de estruturas fúngicas, especialmente em lesões de gatos”, afirma a Dra. Rita Carmona, “contudo, os exames histopatológicos de fragmento cutâneo podem ser importantes, especialmente em lesões não ulceradas, assim como a cultura fúngica e ainda, o exame sorológico”. 

 

Quando da coleta de exsudatos para cultura, estes devem ser enviados em um frasco ou tubo estéril refrigerado, sem conservantes ou anticoagulantes, num período de até 24 horas após a coleta. 

 

“O exame de cultura fúngica é bastante importante para a identificação da espécie fúngica (Sporothrix braziliensis)”, continua, “e hoje temos disponível no mercado brasileiro, um teste sorológico que pode ser bastante útil tanto para o diagnóstico como para avaliação de resposta terapêutica”. 

 

“Técnicas moleculares (PCR) também podem ser utilizadas para o diagnóstico, mas somente é possível a identificação do fungo através de amostras cultivadas (cultura fúngica)”, finaliza. 

 

Por se tratar de uma doença extremamente contagiosa, alguns cuidados devem ser observados pelo profissional veterinário, tais quais o uso de luvas, e se necessário, o uso de máscaras e óculos de proteção para atendimento de animais que estejam apresentando muitas lesões suspeitas;  isolamento dos animais até a completa cicatrização das feridas assim como a desinfecção das instalações com hipoclorito de sódio. 

 

Tratamento 

 

O tratamento da esporotricose se dá através do uso de antifúngicos sistêmicos, sendo o mais utilizado como forma inicial de terapia o itraconazol, que pode em situações diversas, ser associado ao iodeto de potássio. Ainda naqueles casos refratários, indica-se o uso de anfotericina B, intralesional. 

 

“Outros antifúngicos podem ser associados, como o caso da terbinafina, apesar de resultados pouco animadores em felinos com esporotricose”, ressalta a Dra. Rita Carmona. 

 

Uma vez que os antifúngicos apresentam potencial hepatotóxico, os pacientes devem ser monitorados quanto aos possíveis efeitos adversos.

“Quando necessário, pode-se considerar o uso de medicamentos que minimizem os efeitos hepatotóxicos”, recomenda a Dra. 

 

Eutanásia

 

A Doutora Rita Camona ressalta que, infelizmente, ainda existem casos em que a eutanásia deva ser considerada. Isso porque o Sporothrix brasiliensis, espécie de fungo mais prevalente no território brasileiro, apresenta características extremamente patogênicas, com maior potencial zoonótico e que ainda podem carregar mecanismos de resistência antifúngica.

 

Também são frequentes os casos de recidiva, especialmente em animais que apresentam lesões nasais. 

 

“Ainda, deve-se considerar que é uma enfermidade com alto índice zoonótico, então,em situações como: falha terapêutica, impossibilidade terapêutica e grande possibilidade de transmissão para pessoas, especialmente aquelas imunossuprimidas, a eutanásia pode ser considerada”, concluí a doutora.

 

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