Epilepsia: diagnóstico e controle

23 de setembro de 2020

Epilepsia: diagnóstico e controle. Em suas diversas formas, desordem neurológica requer atenção do veterinário e do tutor.

 

A epilepsia é caracterizada quando ocorrem ao menos duas crises epilépticas não provocadas com uma diferença mínima de 24 horas. Já as crises provocadas ocorrem quando um cérebro normal reage a um insulto de natureza metabólica ou tóxica, não sendo, portanto, consideradas epilepsia. A epilepsia faz com que haja maior predisposição para gerar crises epilépticas recorrentes, e pode ocorrer devido a doenças genéticas e alterações cerebrais estruturais (anomalias congênitas, neoplasias, doenças inflamatórias, infecciosas, degenerativas, vasculares e traumas).
Há também pacientes com epilepsia de causa não determinada (sem evidência que aponte para causas genéticas ou estruturais e descartadas as causas de crises provocadas),conhecida como epilepsia idiopática. Estudos identificaram sexo e raça como fatores de risco para a epilepsia idiopática, sendo que cães machos apresentaram chances aumentadas de ter essa condição. Cães da raça Pastor Alemão e Border Terrier também foram mais acometidos, seguidos pelo Golden Retriever, Border Collie e Labrador Retriever, Jack Russel Terrier, Cocker Spaniel e Boxer.

Sinais clínicos da epilepsia.

Nas crises focais, os sinais clínicos estão associados à região do cérebro onde está localizada a zona epileptogênica, que é onde a crise se inicia. Os sinais podem ser motores, autonômicos e comportamentais, com perda ou não da consciência. No caso de uma crise generalizada, pode-se notar extensão e flexão dos membros, perda de consciência, vocalização e sinais autonômicos como salivação, micção e vômitos. Crises não convulsivas podem ocorrer na forma de episódios de atonia e ausência. A crise focal com generalização secundária é a forma mais prevalente, em que um foco epileptogênico recruta o restante do cérebro, e o animal manifesta alterações em uma parte da face ou membros, apresentando em seguida generalização.

Como prevenir?

É preconizada a administração de anticonvulsivantes na prevenção das crises. Na epilepsia estrutural, é fundamental a identificação e tratamento da causa base, quando possível. A epilepsia genética pode ser prevenida com a retirada dos indivíduos da reprodução. Na epilepsia idiopática, a utilização de fármacos anticonvulsivantes nas doses e frequências adequadas pode ser a única intervenção terapêutica. A ocorrência de crises epilépticas pode não cessar por completo, mas uma diminuição da frequência, duração e intensidade das crises já é considerado favorável. Ainda, alguns pacientes desenvolvem crises epilépticas frente a um estímulo sensorial específico, como estímulos visuais e auditivos, e evitar tais gatilhos certamente contribui para a prevenção de novos episódios.

Diagnóstico da epilepsia

Dados como idade, histórico, achados de exame físico e neurológico, resultados de testes laboratoriais e exames de imagem são obtidos para diferenciar epilepsia idiopática, estrutural ou crises reativas. Um cão com epilepsia idiopática deve apresentar exame neurológico normal, com exceção de alterações imediatamente antes da crise epiléptica (sinais prodromais) ou após (sinais pós-ictus). Testes laboratoriais como hemograma, perfil bioquímico ,eletrólitos, urinálise e testes hormonais também auxiliam na identificação de causas metabólicas. Exames de imagem como ressonância magnética e tomografia computadorizada, bem como análise de líquido cérebroespinhal, são indicados na suspeita de epilepsia estrutural, e também testes para doenças infecciosas como cinomose, toxoplasmose, neosporose, criptococose e hemoparasitoses.

O que fazer durante uma crise epiléptica?

Ao presenciar um paciente em crise, o Médico Veterinário deve interrompê-la, seja corrigindo situações como hipoglicemia ou hipertermia, seja utilizando fármacos como os benzodiazepínicos. Para os tutores, deve ser recomendada calma e prevenir ou remover o animal de locais que possa se ferir durante a crise, como móveis, escadas, piscina. Não se deve de forma alguma tentar manipular a boca do animal, pois a chance de acidentes com mordedura é considerável. Importante também orientar que crises acima de cinco minutos ou crises consecutivas sem recuperação entre as mesmas (status epilepticus) ou mais de duas crises em 24 horas exigem a avaliação médica imediata.

E a epilepsia em gatos?

Um estudo identificou probabilidade aumentada para epilepsia estrutural em felinos de idade superior a sete anos de início das crises. Gatos com pedigree, que apresentam vocalização durante a crise e com exame neurológico interictal anormal também se enquadram no perfil. E aqueles com crises de salivação apresentam probabilidade maior para epilepsia idiopática.

Tratamento da epilepsia

Não há diretrizes baseadas em evidências sobre o uso de anticonvulsivantes em cães e gatos. Vários fatores são levados em consideração, como ocorrência de efeitos adversos, interações medicamentosas, tolerabilidade, tipo de crise epiléptica, frequência, etiologia e presença de comorbidades. A disponibilidade financeira e cooperação por parte do tutor também devem ser levados em conta no momento da definição do tratamento. Os fármacos mais utilizados são o fenobarbital, o brometo de potássio e o levetiracetam. A Imepitoína ainda não está disponível no Brasil.
No Brasil, o fenobarbital tem sido o fármaco de escolha em cães sem doença hepática, e seu nível sérico é monitorado em duas semanas após o início da terapia ou após mudança de dose. Caso o nível sérico esteja adequado, mas o controle das crises não seja satisfatório, pode ser adicionado o brometo de sódio ou potássio, que também deve ser monitorado quanto aos níveis séricos.
O levetiracetam pode ser usado como fármaco antiepilético adjuvante ou como pulsoterapia na ocorrência de crises epiléticas agrupadas. É também uma opção terapêutica para pacientes com disfunção hepática, o que contraindicaria a utilização de fenobarbital. A desvantagem é sua curta meia-vida de eliminação, tornando necessária a administração a cada oito horas. Há pouca informação sobre recidivas de crises epiléticas em cães que diminuíram ou retiraram o fármaco antiepilético, sendo uma decisão que deve ser considerada individualmente, considerando riscos e benefícios. No geral, um período de um a dois anos sem qualquer crise é recomendado antes de suspender gradativamente (20% ao mês) a terapia. Os riscos envolvem a ocorrência de crises rebote e status epilepticus. Caso seja necessário suspender o tratamento devido a efeitos adversos graves(como o fenobarbital na disfunção hepática grave), o paciente deve ficar sob observação e a utilização de brometo de potássio ou levetiracetam deve ser iniciada imediatamente em doses de ataque, para alcançar níveis séricos adequados.

A epilepsia tem cura?

Existem relatos de remissão. Se houver uma causa primária tratável, e não se desenvolverem sequelas, pode-se dizer que há cura. Mas, geralmente, a epilepsia exige tratamento por toda a vida.

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