Cães “de alerta” ajudam a cuidar de pessoas diabéticas; entenda

31 de agosto de 2020

Assim como cães treinados servem de guias para deficientes visuais, animais estão sendo treinados para perceber alterações de glicemia no sangue

Arnaldo Schainberg

Quem nunca teve um animal de estimação e não se afeiçoou por ele?Esses animais tem o dom de, devagarinho, ocupar um papel na vida dos seus tutores de forma tão importante que muitas pessoas nem chegam imaginar quanto.

Em alguns cenários essa relação se torna indissociável da vida dessas pessoas, como no caso daquelas com deficiência visual. O cão-guia (ou cão de assistência) é um animal adestrado para guiar pessoas com deficiência visual grave, ou auxiliá-los nas tarefas caseiras. O cão-guia é um companheiro imprescindível para o tutor, e com sua atuação de guia permite liberdade ao deficiente visual para, por exemplo, sair de casa e praticar as atividades diárias comuns com muito mais desenvoltura.
Hoje em dia têm surgido outros papéis importantes terapêuticos para esses queridos bichinhos, e não à toa eles são popularmente chamados de “melhores amigos” dos seres humanos. Alguns animais podem ser adequadamente treinados e são conhecidos como “cães de alerta”. Esses animais ganharam muito interesse e podem ser utilizados em outras patologias, atuando como colaboradores na monitorização de pacientes com alguma descompensação de algumas doenças. Tem havido um número crescente de estudos, por exemplo, do uso de “cães-alerta para diabéticos”. Parece que, aliado ao olfato apurado dos cães, quando muito bem treinados eles aprendem a farejar odores específicos exalados pelos pacientes quando a glicemia oscila no sangue dos diabéticos.
Nos pacientes com diabetes tipo 1 (DM1), que usam insulina em múltiplas doses diárias, a hipoglicemia (baixa glicose no sangue) é um efeito colateral comum do tratamento intensivo, que busca atingir níveis o mais próximo do normal possível, mas eventualmente leva a valores mais baixos do que o necessário. O DM1 é uma doença que ocorre mais frequentemente, mas não com exclusidade, nas crianças, adolescentes e adultos jovens, mas pode ocorrer em outras faixas de idade e até mesmo nos idosos.

Acaba sendo muito angustiante para os pacientes e familiares as crises repetidas de hipoglicemia. Níveis muito baixos de glicose podem levar a riscos de doenças neurológicas graves, com perda de consciência e convulsão e até consequências cardiovasculares. Os quadros mais graves podem ocorrer especialmente nos pacientes que perderam a capacidade de perceber os sinais de alerta prévio de alterações iminentes de glicose no sangue, como os tremores, palpitação e sudorese. A falta de sintomas de alerta é relatado em até 25% dos pacientes com DM1, aumentando o risco de episódios de hipoglicemia grave em 6 a 7 vezes.

O medo de hipoglicemia é muito comum, particularmente relacionado a episódios de hipoglicemias noturnas que são uma causa potencial rara até de risco de morte. Esse medo pode levar os pacientes a manipular o controle da glicose com ajustes dos níveis de insulina para manter valores de glicose mais elevados, mas tendo como desdobramento, por outro lado, um mau controle do diabetes, o que poderia aumentar o risco a longo prazo das consequências deletérias da hiperglicemia (glicose alta no sangue) nos rins, retina e nos nervos.

Há uma variedade de tecnologias disponíveis atualmente para ajudar os pacientes monitorizarem as variações da glicemia ao longo do dia, mas uma potencialmente valiosa que vem sendo estudada é a intervenção usando o cão de alerta da glicemia. Em pesquisas anteriores de estudos de caso sugeriram que alguns cães de estimação respondiam naturalmente ao estado hiperglicêmico de seus donos e, com base nisso, instituições de caridade começaram a treinar cães para conviver com pessoas com DM1.

Semelhantes a cães treinados para detectar o contrabando, esses cães são condicionados a responder com comportamentos de alerta específicos quando o açúcar no sangue de seus tutores fica fora de uma faixa-alvo. Isso leva o paciente a testar seu nível de glicose no sangue e tomar ação (por exemplo, administração de insulina se glicemia elevada ou alimentação se glicemia baixa) para manter os níveis de glicose apropriados. Enquanto algumas organizações treinam todos os cães para um intervalo genérico, outras treinam cães individuais para melhor atender às necessidades específicas de cada cliente

No entanto, ainda carecendo de mais estudos conclusivos, permanece a possibilidade de que ter um cão treinado simplesmente produziria um efeito placebo com benefícios não superiores aos conhecidos por estarem associados ao tutores de cães em geral não treinados. Na melhor das hipóteses, um cão alerta treinado poderia ter o potencial de melhorar muito a qualidade de vida das pessoas vivendo com DM1, o que lhes permitiria regular mais rigidamente o açúcar no sangue e evitar os riscos de episódios de hipoglicemia e consequências da hiperglicemia a longo prazo para a saúde. Uma vez que o uso de tais cães está crescendo, e a falsa confiança nas habilidades dos cães podem ter consequências prejudiciais, é vital que sua verdadeira eficácia seja cada vez melhor avaliada e fatores que afetam o desempenho identificados.
Pesquisadores do Reino Unido em 2019 publicaram estudo na revista científica Plos One mostrando que os “cães alertas para diabéticos” bem treinados tiveram uma maior sensibilidade às mudanças na glicose do sangue do que tinha sido demonstrado em estudos anteriores. Esses cães poderiam, portanto, melhorar a qualidade de vida de pacientes com DM1, particularmente aqueles que têm a hipoglicemia sem a percepção por falta dos sinais de alertas clínicos.
O estudo atual explorou ainda mais a variabilidade nas taxas de resposta de cães de alerta de glicemia, usando cães treinados por uma única agência, o Medical Detection Dogs, que é o único programa no Reino Unido e que é credenciado pela Assistance Dogs UK para treinamento de cães de alerta de hipoglicemia.

Os cães são inicialmente treinados na sede da instituição de caridade usando amostras in vitro obtidas do potencial proprietário do cão. Amostras da respiração ou do suor são obtidas quando a pessoa está em estado de hipoglicemia e os cães recebem uma recompensa de comida ao acertar a amostra com o odor do paciente com hipoglicemia. Os cães são treinados para responder às amostras com comportamentos específicos, como lamber o proprietário ou buscar o kit de teste de sangue.

Antes do credenciamento os clientes eram obrigados a manter registros de todos os testes de glicose no sangue de rotina (feitos no mínimo seis vezes por dia) e também eram orientados a testar seus níveis de glicose no sangue cada vez que seu cão mostrava um comportamento de alerta. Embora o treinamento e a acreditação in vitro envolviam apenas hipoglicemia, os cães frequentemente alertavam também espontaneamente para hiperglicemia quando combinados com seu dono.
Os autores, liderados por Nicola J. Rooney, PhD, da Escola Veterinária de Bristol, da Universidade de Bristol, Reino Unido, estudaram 28 cães e seus parceiros humanos em mais de 4000 episódios de hipoglicemia e hiperglicemia.  A pesquisa mostrou que os cães que passaram por um programa de treinamento rigoroso alertaram seus parceiros humanos em 83% dos episódios hipoglicêmicos e em 67% dos hiperglicêmicos. Quatro desses cães tiveram um valor preditivo positivo (a validade de conseguir predizer a ocorrência do evento) para detectar episódios de glicose alta ou baixa de 100% e a mediana foi de 83% (ou seja, para metade das parcerias, os cães alertaram os proprietários para um mínimo de 83% dos episódios de hipoglicemia).  Essa pesquisa mostrou que a eficácia foi afetada pelo cão individual e por sua conexão com seu parceiro humano. Até então, as evidências vieram de estudos de pequena escala, mas este novo estudo forneceu a primeira avaliação em grande escala do uso de cães treinados de detecção para hipoglicemia.
Apesar de esse estudo publicado no ano passado ter tido resultados mais promissores, essa alternativa provavelmente terá pouco alcance. Os centros de treinamentos credenciados desse tipo de animal são poucos mundo afora e o custo final para o tutor é muito alto. Além disso, nos últimos anos, tem surgido uma variedade de sensores de monitorização contínua de glicose, que vêm sendo aperfeiçoados, são capazes de enviar as medidas de glicemia e que podem ser compartilhadas para os familiares e médicos em tempo real. Alguns possuem também sinalizadores de alerta. Esses novos sensores também têm preço elevado, mas imagino que terão maior possibilidade de, em médio prazo, ficarem mais acessíveis aos pacientes do que os cães de alerta.

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