BLOG – Vocês ainda recomendam a sedação de cães e gatos antes de viagens aéreas?

9 de dezembro de 2021

Saibam o que dizem os especialistas!

De acordo com a American Veterinary Medical Association (AVMA), não se deve recomendar ou sedar cães e gatos para o transporte aéreo em aeronaves comerciais. Sabe-se que a sedação é a causa mais frequente, correspondendo a quase metade dos óbitos de animais durante as viagens aéreas. Portanto, exceto em circunstâncias extremas, não há indicação para sedar os animais que serão transportados (Tennyson AV, 1995).

Vale ressaltar que ainda pouco se sabe sobre os efeitos de alguns fármacos tranquilizantes (como por exemplo os fenotiazínicos e benzodiazepínicos) em animais que estão sob o estresse do transporte, dentro de caixas e viajando em compartimentos de carga pressurizados a 8.000 pés ou mais de altitude. Por exemplo, alguns autores relatam que o efeito hipotensor da acepromazina pode se intensificar em altas altitudes (Ghandour, 2017).

Ainda, existem as variações individuais dos animais frente a alguns pré-anestésicos e anestésicos e caso haja um efeito inesperado e/ou deletério, estes animais estarão sozinhos e não poderão ser socorridos em tempo hábil ou de forma adequada.

Esses fármacos podem ter efeitos cardiovasculares e respiratórios e em animais com alguma enfermidade não diagnosticada anteriormente, os riscos podem se intensificar dependendo da droga utilizada.

Em um trabalho conduzido por Bergeron (2002), foram avaliados parâmetros fisiológicos, comportamentais e os níveis de cortisol sérico de 24 Beagles viajando de avião, divididos em 2 grupos – um sem sedação e outro com acepromazina na dose de 0,5 mg/Kg. Após avaliação chegou-se à conclusão que “o transporte foi estressante para todos os cães e que a sedação com acepromazina, na dosagem usada, não afetou positivamente as respostas fisiológicas e comportamentais ao estresse dos cães”.

O estresse ocasionado por todo o processo do transporte aéreo pode também ser bastante deletério ao bem-estar, a saúde física e trazer muitos riscos, principalmente para animais baquicefálicos, mas existem outras formas de ajudarmos a diminuir este estresse em casos onde a viagem aérea é realmente necessária.

Os cães braquicefálicos, frequentemente acometidos por estenose de narinas, palato mole alongado, hipoplasia de traquéia, devem receber atenção especial e evitar viagens no compartimento de carga, pois tem maiores chances de ter colapsos respiratórios por conta de hipertermia (heat stroke),  hiperventilação, edema de glote entre outras alterações aumentando as chances de morte durante as viagens. Em casos em que a viagem é extremamente necessária, existem estratégias que podem ajudar a diminuir o estresse do animal durante o voo, como o uso de feromônios (Feliway™ para gatos e Adaptil™ para cães) nas caixas, para ajudar a acalma-los. Ressalta-se que estes feromônios, quando pulverizados, funcionam apenas por 2 a 4 horas, mas já pode ajudar bastante no início da jornada.

Em contrapartida, os animais não sedados conseguem se adaptar melhor às alterações de temperatura e pressão que possam ocorrer. Caso uma caixa de transporte é movimentada, o animal alerta se posiciona a fim de evitar traumas em sua musculatura, cabeça, etc.

Como veterinários devemos entender que não existe “risco zero” em viagens aéreas, principalmente quando os animais vão viajar no compartimento de carga sem a companhia de seus tutores. Cabe a nós, médicos veterinários, sempre explicar os riscos aos nosso clientes e fazer avaliação prévia do animal, com destaque do sistema cardiopulmonar, uma vez que enfermidades cardio-circulatórias podem aumentar o risco da viagem.

É de extrema importância orientar o tutor a colocar peças de roupa com seu cheiro dentro da caixa, a fim de fornecer um “odor” familiar, colocar algum brinquedo preferido e o mais importante, começar a acostumar o animal a entrar e dormir dentro da caixa de transporte que será usada na viagem, semanas ou meses antes, fazendo com que a mesma se torne uma zona “segura” e menos estressante ainda.  O tutor ainda pode oferecer alimentos gostosos e petiscos dentro dela, para acostuma-los. Oriente-o para nunca forçar ou prender o animal dentro da caixa neste período de adaptação. Existem ainda fitoterápicos e medicamentos homeopáticos indicados para reduzir o estresse.

Importante alertarmos nossos clientes que sempre existe um risco no transporte aéreo de cães e gatos, que o ideal é voar com o animal na cabine, mas se não for possível  que devem comprar sempre o voo mais curto e sem conexões, deve-se evitar voar nas horas mais quentes do dia (principalmente durante o verão) e seguir todas as recomendações da companhia aérea em relação a segurança da caixa e do animal.

Viagem segura precisa ser bem planejada e devemos todos trabalhar para diminuir ao máximo os riscos preveníveis.

Bibliografia:

 

  • Tennyson AV (1995) Air transport of sedated pets may be fatal. J Am Vet Med Assoc 207: 684)
  • Bergeron R, Scott SL, Emond JP, Mercier F, Cook NJ, Schaefer AL (2002) Physiology and behavior of dogs during air transport. Can J Vet Res 66: 211–6
  • Companion Animal. Vol. 22, No. 5. Transporting small animals by air: welfare aspects. Ibrahim Ghandour. 2017.  https://doi.org/10.12968/coan.2017.22.5.284

 

 

 

 

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